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09/09/2015


A galinha cega

Essa é a história de três irmãs velhas e sozinhas que moram numa pequena cidade, em uma casa avarandada com uma galinha cega no quintal. Desde quando vem essa cegueira, nenhuma delas pode vaticinar. A irmã do meio, mais rabugenta, porém delicada, à medida que se dá a sutilezas como falar com plantas, foi a primeira a perceber que a galinha Carla tinha um temperamento arredio; não se misturava às outras, nem no distribuir dos milhos que, pontualmente às oito da manhã, a irmã mais nova despejava pelo chão do quintal. Zelosa e comedida, (ou orgulhosa no dizer da irmã mais velha), Carla comia depois das outras, não se importando de ficar com a xepa do piruá.

Foi num dia quente de setembro que, enquanto a irmã mais nova enrolava seu cigarro de palha, recostada ao cano que ancora a varanda, ela viu Carla se debatendo contra a parede. Se tivesse a irmã mais nova um pouco mais da vivência da irmã mais velha e um pouco mais da destreza da irmã do meio, teria logo se inteirado da deficiência da galinha. Mas não sendo portadora de tais atributos, a irmã mais nova se limitou em catar uma brita do chão e atirar contra Carla. E gritar: Galinha burra!

A irmã mais velha, mãe de três filhos que nasceram mortos, foi a primeira a notar que, de todo o bando, Carla era a única a não ter gerado prole. E botando reparo, por seu temperamento recluso, nem com galinha, nem com galo Carla se dava. A irmã mais velha pensou que não havia destino mais certo pra ela que não a panela. E ficou assim, parada, olhando por alguns segundos Carla sozinha, sob o sol, cercada de pintinhos que não eram dela. E então chorou. Chorou um choro de criança abandonada. De criança sem mãe. De criança morta.

E foi pontualmente às oito da manhã que a irmã mais nova saiu no quintal e viu Carla deitada no chão, enquanto todas as outras galinhas cacarejavam em alvoroço, intuindo na presença da irmã mais nova o desjejum. E a sensibilidade que lhe faltou por toda a vida, lhe sobrou nesse momento pra esquecer o saco de milho no chão e pegar Carla nos braços, que ofegava. Percebeu que dos seus olhos saia um negrume, como que um choro enlutado, uma graxa leitosa. A irmã mais nova levou Carla contra o seu peito, como se ninasse um filho. Ofegante, Carla mantinha os olhos abertos, buscando alguma coisa na escuridão, enquanto a irmã mais nova com muita ternura começou a entoar um canto e balançar pelo quintal, em roda.

Foi com essa mesma ternura que a irmã mais nova olhou nos olhos de Carla e, pela primeira vez em muitos anos, se comoveu. E foi com essa comoção que, com muita delicadeza, num só golpe, ela torceu o pescoço de Carla.

Da soleira da porta as duas outras irmãs a olhavam com olhos opacos, como se faltasse no olhar as retinas, como se fossem dois rostos furados. Ao sentir-se flagrada a irmã mais nova soltou Carla, que caiu morta no chão. As outras galinhas se aproximaram, contornando a irmã mais nova, e logo passaram a ciscar o corpo de Carla, começando pelos olhos.

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 09h45 AM
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22/06/2015


A casa vazia

No rejunte do banheiro está incrustado o vapor de dois corpos que ali se secaram. Dois corpos silenciosos ali estiveram, ali se molharam, apararam a umidade com uma toalha laranja e outra azul e depois as deixaram ali estendidas, aproveitando a nesga de luz que vinha da janela, criando, em sombra, a forma do chuveiro na parede.

Entre cada azuleijo existe o silêncio de dois corpos que se evaporou e condensou, criando no espaço uma vibração silênciosa. Como no teto enegrecido da cozinha; gordura misturada ao grito que um dia ela lançou na direção dele numa noite de uma quarta-feira de Agosto. O que ele consegiu escutar foi o que sobrou do berro que entre ele e ela se dissipou no ar, indo parar no teto. Ficando ali por anos, como uma nódoa, uma prova inequívoca de que ali, naquele espaço, numa quarta feira qualquer, duas pessoas se olharam sentindo o pesar de já quase nem se amarem.

Tudo na casa flutua, paira. Como a voz do pai ecoando pelos cômodos como uma onda de rádio; invisível e codificada até que um dia, um filho venha a se sentar à mesa e, sem que perceba, tomado por palavras que não são suas, fale com uma empostação patriarcal e assuma um trejeito contido, reto, endurecido. Todos à mesa o olharão num misto de admiração e susto. E pensarão em silêncio: “Enfim, a casa tem um pai.” Sem saberem, no entando, que não é o pai, não é a mesa, não são os olhos assustados. É casa. Tão somente a casa.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 01h58 PM
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18/06/2015


Solos

Ela disse: cuando uno no tiene con quien compartir las cosas, se torna una persona sola. Eu meneei a cabeça como se concordasse, depois baixei meus olhos sobre o café já frio e dei duas voltas na xícara com a colher, volvendo do fundo o açucar restante.

Ela me olhava como se olha a alguém depois de ter dito algo com propriedade, sabedora do que estava em jogo no que dissera. Era uma das suas especialidades transformar qualquer fala prosaica numa mensagem cifrada. E ela sabia, a despeito do tempo passado, que era eu seu melhor tradutor.

Só que ali, no meu baixar de olhos, no meu mexer displicente na xícara, não havia nenhum esforço de entender o que ela dissera. Eu estava interessado no ‘como’. Duas horas conversando no mais translúcido português, recheado de prosódia goiana e ela, num súbito, diz em fluente castelhano: cuando uno no tiene con quien compartir las cosas, se torna una persona sola.

Ela não tinha essa desenvoltura com a língua e então eu me assustei, antes pela construção frasal que pelo conteúdo. Tentei disfarçar, meneei a cabeça, mexi o café. Mas quando ouvi cuando uno no tiene… Foi como ouvir: el tiempo ha pasado. Mira vos…Não sei ao certo a razão, mas por ter me olhando assim nos olhos, por ter falado nesse quase lunfardo, tive um impulso incontrolável de ser cínico. Não fui. Abaixei meu olhar, mexi na xícara e através do vidro da mesa vi que ela mexia os pés sem parar, como antes. Ela, se sentindo flagrada, parou.

Eu queria ter dito: Existe uma memória que é do corpo. Nada adianta esse seu esforço solene para parecer que o tempo fez de você uma coisa que eu, de nenhum lugar, poderia acessar. Não adianta encher a boca pra dizer ‘lo que hace o no hace una persona sola’. Sobre estar sozinhos, aprendemos juntos. Somos irmãos nessa solidão, porque somos reféns do que vivemos. Sei dos seus pés que movem, conheço sua ansiedade como se fosse minha e dividiria até meu Frontal com você, numa segunda-feira agitada. Seu pé te entrega, sua ânsia te revela. Admitamos: Somos as mesmas duas pessoas, atravessados pelo tempo.

Mas não disse. Ela também não quis saber se por fim eu concordava ou não. Ficamos nesse silêncio remanescente da última fala e ao mesmo tempo precedente da seguinte.  Um silêncio que guarda a memória dos dias gastos num castelhano ainda rastejante, em uma Buenos Aires menos hostil. Um silêncio que vai nos cercando, como que delimitando e estreitando o lugar. Um silêncio que vem abraçando e sufocando e vai se fundindo; se transformando em eco do que não foi dito, nem seria, nem será. Toda história vivida para desaguar no silêncio que nessa tarde fria yo y vos compartimos. Y  todavia seguimos. Solos.


Escrito por Jarleo Barbosa às 03h47 PM
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17/01/2014


Chuva


No dia que nasci, choveu. Apesar de ser agosto, apesar de ser Goiás, choveu. O pai preocupou, temendo pelas visitas. 
Ou a falta delas. Mãe disse: Calma, pai, logo passa! Não passou.

Fui crescendo debaixo desse toró, achando normal o aguaceiro. Capa de chuva não era adorno, guarda-chuva guardava a gente e caixa d'água era tudo aberta, porque não tinha água parada.

Era com lágrima nos olhos que o pai falava do sol, a vó se demorava no detalhe do calor que fazia e a mãe vaticinava: não há noite perpétua, nem estio permanente. Tudo há de passar. Não passou.

Porque era antes e não havia internet, nem enchente, vinha pela TV notícias solares do mundo.
Na escola a gente aprendia que nordeste era onde não chovia e São Paulo onde chovia tímido.


(A vontade de mundo me secava.)

Hoje já faz anos já que parti, com os olhos ensopados da saudade que previa de lá. Saí ganhando estrada, enlameando o sapato com terra e vontade de ficar. Não fiquei. Mas não sequei.

Foram muitos anos pra entender que aqui também chove, mas cada um chove sozinho.


Escrito por Jarleo Barbosa às 04h05 PM
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25/04/2013


Solidão

Numa manhã nem quente, nem fria de outono, a campainha de Antônio tocou. Pelo cedo da hora, ele estranhou, mas abriu. E lá não havia ninguém, só o vento nem quente, nem frio de maio. Porém, antes de fechar a porta, um ronronar lhe chamou a atenção. Embaixo, ao lado do tapete, uma caixa. Dentro da caixa, um gatinho. Tão pequenininho, tão cheio de inhos que era impossível não lhe pegar nos braços, não lhe levar pra dentro, não roçar o nariz no nariz dele, não lhe alimentar, não ligar pra namorada pra contar. A mesma namorada que, dotada do diploma de bióloga, aferiu e concluiu:

__Não é um gato, é um leopardo!

Por alguns segundos o carinho de Antônio pelo bichano se suspendeu como se a palavra leopardo conferisse ao animalzinho uma rudeza que deixava o afeto meio de lado. Mas aos poucos a palavra foi se adoçando no ouvido de Antônio e o carinho foi se instalando nele por aquele gato que, por acaso, era um leopardo.

Antônio nunca mais esqueceria a primeira vez que viu o bichinho dentro daquela caixa, sozinho, abandonado sabe-se lá por quem, tirado sabe-se lá a que força da mamãe leoparda. E tão forte era a imagem do gatinho largado naquela caixa que Antônio lhe deu o nome de Solidão.

Solidão foi logo ganhando lugar no quintal, ração especial que Antônio mandou trazer de São Paulo e foi ganhando peso, pêlo, tamanho. Solidão se acostumou a passar o dia todo sozinho e Antônio se acostumou com as patas de Solidão no seu peito ao chegar em casa, a língua áspera dele em seu rosto. Um foi se habituando à presença do outro, ao silêncio do outro, resolvendo as minúcias dos dias com gestos, murmuros e olhares. Antônio e Solidão falavam a mesma língua. E era mesmo por isso que não precisavam dizer nada.

Com o tempo Antônio foi sendo só pra Solidão e Solidão só pra ele. Assustados com a novidade felina os amigos de Antônio foram deixando de frequentar sua casa, a namorada bióloga preferia bicho impresso no livro e não suportou os pêlos de solidão espalhados pelo chão.

Um dia, numa manhã de outro outono, mais pra frio que pra quente, Antônio foi acordado por um rosnado. Em frente à sua cama Solidão o encarava sério, como os dentes à mostra. Antônio ecnonomizou os movimentos, piscou muitas vezes e, de nervoso, sorriu de canto de boca. Disse apenas:

__Ô, Solidão!

Antes que terminasse a frase, Solidão, num saltou, lhe cravou os dentes na jugular. E de nada valeu o tempo gasto, o nariz roçando nariz, a tigela de leite, o silêncio compartido, o afeto, o convívio. Apesar de tudo isso, Antônio se esqueceu, Solidão era selvagem.

Escrito por Jarleo Barbosa às 09h22 AM
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10/04/2013


Eu não quero saber

Não quero saber. Estou bem na sua ausência. Levanto cedo, faço o mesmo café, as memas duas colheres de açucar, o mesmo fogo alto, o mesmo pão, a mesma manteiga, o queijo, a mesa, a pasta de dente. O mesmo refluxo; o gosto da noite voltando na boca.

Por isso não quero saber. Continuo descendo o mesmo elevador e ocupando meu tempo com as frivolidades de sempre. Nas segundas, falo com o porteiro dos jogos de domingo, nas terças falo dos de quarta, na quarta reitero, na quinta depende, se o Flamengo ganha, faço aquele gesto com a mão que ele já entende que existe ali uma relação de poder e manda quem ganhou. Agora, se o Flamengo perde, eu saio pela garagem. Na sexta os assuntos são menos urgentes. Sábado é sol. Domingo é Fla-Flu. Tudo permanence na perfeita ordem. E eu não quero saber.

Preservo minhas liturgias, os longos banhos matinais, o check list exato para cada trajeto de ônibus, a leitura antes do sono, o café no meio da tarde. E as manias: não fazer sombra no prato enquanto como, escovar os dentes começando pela lingua e mexer a cabeça como se eu tivesse cabelo longo e o tivesse tirando do rosto.

Sigo fingindo que falo ao celular se me sinto deslocado, sigo devendo o cheque especial no Itaú e sentindo uma imensa compaixão pelo meu gerente, que parece estar atrás daquela mesa por eras. Esses dias ele me disse, querendo me tranquilizar, que quanto mais dinheiro, mais dívida. E entrou num papo que não consegui acompanhar porque fiquei imaginando ele ali acorrentando naquela cadeira enquanto todo dia um águia viria lhe comer um pedaço do fígado. E que esse mesmo fígado, ao fim do expediente se reconstituiria. E no dia seguinte a águia voltaria. E no seguinte. E no seguinte. E no seguinte. Até a aposentadoria.

E eu não quero saber. Estou absolutamente confortável dentro do tempo que outrora faltava. O tempo que era destinado ao sofrimento, hoje gasto com TV aberta, sofá, corrida, ralo entupido, louça suja. Essas coisas todas que eu não lembrava o peso que tinham sem ranhura do pesar.

A vida tem sido o que sempre foi. Essa quarta-feira de cinzas com restinho de purpurina no chão. Os mesmos medos, a mesma coragem, a mesma padaria na esquina, o mesmo rancor, a gastrite, a caspa, as cólicas, a pele empolada, a gaganta fechada. O corpo provando o contrário: que nada fica impune a nada. E embora eu diga que não, o dia a dia, o café, o porteiro, o gerente, a TV, o sofá, tudo está, desde então, suspenso há dois dedos do chão.

Escrito por Jarleo Barbosa às 01h29 PM
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30/12/2012


Das cores


Ele foi embora como que arrancando as cores dos lugares por onde passava.
Na estrada, quem olhava se assustava; um ônibus passando rebocando um árco-íris.

Escrito por Jarleo Barbosa às 12h38 PM
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03/12/2012


A parede

      Conversavam sobre a nova pintura do apartamento. Ele achava que o sofá vermelho não impedia que a parede fosse pintada de verde. Ela, sempre mais prudente, pensava que o laranja cairia melhor. (Mania dela de pensar o mundo gradualmente)

Ele encarou o branco da parede por alguns segundos. Ela imaginou que ele imaginava ali cores: verdes, laranjas. Mas não, ele acabava de se lembrar da conta de gás que havia havia esquecido de pagar. E por isso imaginou a fila que enfrentaria na segunda-feira, e por isso lembrou de seu banco, e se lembrou sobretudo que o corrimão da escada do seu banco era laranja, que o uniforme dos funcionários era laranja, os adesivos na porta, a maçaneta, a tampinha da ceneta. E rompeu o silêncio abruptamente:
     __Laranja, não!

De tão categórica a resposta, não ofereceu tréplica. Ela ficou parada, calada olhando pra ele, depois pra parede branca. E gradualmente começou a considerar que, realmente, laranja não.

Após sua resposta ele se sentiu subitamente cansado, quase nauseado. Caminhou até a janela, encostou a mão no parapeito e encarou a cidade como se faltasse no que via, horizonte. Como se os prédios lhe turvassem a vista e lhe privassem a sensação de que o mundo é findo. E sentiu falta da praia, sentiu falta de se sentar em frente ao mar e pensar:

__Depois dalí, acabou!

Ela, por sua vez, pegou uma camisa verde no guarda roupa e a esticou contra a parede. Olhava pro verde e pra parede, pra parede e pro verde. Depois olhava pro sofá e voltava pro movimento parede-verde. Por fim, olhou pra ele e disse:

__Você acha?

Ele olhou por cima do ombro, coçou a nuca. Ela sabia o que ele iria dizer após coçar a nuca e já soltou a camisa, jogando-a sobre o sofá.
    __É, não sei, acho que laranja é melhor mesmo. Ele disse.

__Laranja, não! Ela respondeu.

Ele voltou seus olhos pra fora e após ver uma varanda cercada de plantas achou que deveria ser interessante a vida das pessoas com varandas cercadas de plantas. E quis ser interessante também e ter uma varanda cercada de plantas. Apesar de não gostar do quanto venta nas varandas e nem ter lá esse afeto por plantas. Mas ali naquele momento gostou de se imaginar sentado numa varanda cercada de plantas, ou regando as plantas que cercam a varanda, ou simplesmente pra dizer pra ela que a parede deveria ser verde pra combinar com as plantas da varanda.

Ela pensou exatamente: talvez seja melhor quebrar essa parede. Ou talvez não exatamente assim. Quem sabe nem tenha pensado, mas disse:

__Talvez seja melhor quebrar essa parede.

Ele girou seu tronco e a encarou. Ela completou:

__É porque aí a sala fica maior.

Ele não mais a encarava. Olhava pro chão, reparando no rejunte mal feito do piso. Respirou profundamente pra conferir certa sonelidade ao que ia dizer e disse:

__A gente tava falando de espaço ou de cor?

Ela entendeu a pergunta dele. E por entendê-la não respondeu. Ambos sabiam que nisso de falar de parede estava contido o tempo, as vezes que ele não viajou por causa dela, as vezes que ela silenciou pra agradá-lo, o gozo e rancor mal dissimulados, a viagem pra Itália, as insônias, o anticoncepcional, o remédio pra calvice, a gastrite, os primeiros meses da paixão, a rotina, o cansaço. Era isso que o verde e o laranja falavam.

A parede da sala continuou branca por anos e anos. Tendo sua cor alterada somente pelo tempo que, com seu passar, vai gradualmente acizentando tudo.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 01h44 AM
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18/04/2012


Superfície

Digo distraidamente: são seis e pouco da tarde. Você ouviu, mas pergunta outra vez. Eu respondo cansado: seis horas...seis e alguma coisa. Você se consterna. E no silêncio rubro da tarde eu percebo que o contato não nos aproxima. Porque eu sou do avesso. A minha superficie ninguém nunca viu porque tá dentro. O que eu mostro é o profundo.

E exatamente por isso, fico meio acanhado de deitar no seu colo. Volto a dizer: minha superfície é impenetrável. E você, sem saber, vai acarinhar meu cabelo, enquanto fala da fila do supermercado. É o profundo que sua mão acarinha. E então eu me levanto assustado, porque nenhum profundo consegue ser assim tocado como se o mundo se encerrasse no físico. A superficie é o que delineia o dentro.

Prossigo: Eu me levando assustado e num canto de olho percebo que no seu colo ficaram as caspas tiradas à carinhos da minha cabeça. Eu já não me reconheço nesses pedaços soltos de mim. Você, num ato de amor, não se limpa, iludida de que assim nossas superfícies se encontram. Porque você não sabe que nem a mim me pertenço. Sou o que consigo ser a despeito de mim. Digo isso sem reverberar, sem me preocupar como soa. Porque não sou oco; dentro de mim nada ecoa.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 01h36 AM
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19/12/2011


O quadro

Eu apontei pra parede e disse que o quadro ficaria bom ali, um pouco descentralizado. Você concordou, eu bati o prego e você o pendurou. Ficamos assim, sentados em silêncio; observando a proporção parede/quadro. Em silêncio concordamos que aquele definitivamente era o lugar. Sorrimos orgulhosos.

Mas apesar do consenso, nem eu, nem você dizíamos nada. O silêncio foi se adensando como que se inflando de todas as palavras não ditas. Nós dois ali sabíamos profundamente de alguma coisa que a gente não fazia ideia do que era. Mas eu sabia, por exemplo, que aquele quadro pendurado à nossa frente tinha alguma coisa a ver com a busca pelo sublime, pelo etéreo. Eu me lembro bem de quando você viu essa imagem pela primeira vez e disse que ela lhe fazia desacreditar um pouco na ruindade do mundo. E então ela assim na parede da nossa sala, dá a impressão que o mundo é plausível. E que sendo plausível, seja justo.

E só agora sob o peso desse silêncio eu entendo algo que você escreveu há uns dois anos na última folha do meu bloco de anotações: o meu amor por você estende-se pro mundo. É só agora olhando essa parede branca invadida por um quadro, vendo o sol invadir a janela e fazer um desenho de luz e sombra no seu rosto, começo a entender que quem ama alguém, ama o mundo inteiro. Porque o amor torna a vida possível.

E nesse vago momento de olhar um quadro, está oculto os quilômetros que nós andamos, as vezes que bati à sua porta, o fato de eu saber sua marca preferida de ketchup, nosso hábito de ir domingo ao parque, as vezes que comprei o seu absorvente, ou que ri do jeito da sua tia. Está completamente imerso nesse silêncio aquela sexta-feira quente que servi cerveja no seu copo e o sábado à tarde que limpei a poeira embaixo da sua cama, ou as vezes que não sabíamos se virávamos aqui ou na outra esquina. Porque eu te olhei dormindo e continuei andando; quilômetros, quilômetros, quilômetros. E atravessei o oceano.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 01h53 AM
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18/11/2011


Esfinge

 

Um dos meus mais secretos desejos é o de me tornar uma esfinge. Não sentir nada, não pensar nada e sobretudo não falar nada. Permanecer assim; oniponente, reta, impassível.

Tenho, sempre tive, uma ânsia por dizer, mas tão logo as palavras saem da minha boca ou caem no papel, vem o arrependimento. Não gosto de arcar com o que digo. Porque não digo como quem quer dizer, mas como quem não pode não dizer.

Eu falo pra que o dentro saia, por um vontade de vazio, um desejo de ser leve; pra me despir de qualquer vontade, pra me limpar, pra me santificar.

Tenho ficado cada vez mais silencioso. Escrevo uns versos assim pequenininhos porque tenho dito mais com os espaços do que com as palavras. Quanto mais falo, menos me explico e menos entendo dos outros e de mim. E as melhores lembranças que tenho não foram lendo, nem ouvindo, nem falando; foram em silêncio. No escuro.

Não dizer com os olhos, não dizer com as mãos, não dizer com o corpo. Calar-me de dentro pra fora. Completamente.  A ponto de o silêncio não ter sequer significado. Porque nada que eu possa dizer muda o fato de que nada pode ser dito, ainda que possa ser compreendido.

Queria poder não precisar transformar as coisas em palavras. Porque ao serem ditas as coisas passam a existir. E existindo eu preciso lidar com elas e pra lidar com elas preciso de outras palavras que criam outras coisas que criam outras palavras, que criam outras palavras, que criam outras palavras…

Espero o dia em que eu, esfinge, encare o deserto com um olhar suave e silencioso. Mas nem suave será porque não haverá palavra pra dizer isso, e nem vai ser deserto e nem vai ser esfinge e nem vou ser eu.

 


 

Escrito por Jarleo Barbosa às 11h34 AM
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19/04/2011


Julie, Agosto, Setembro

 

Em 2010 eu vivi minha experiência mais pragmática e dolorida com o universo da perda. Isso de alguém morrer ou ir embora eram pra mim imagens meramente simbólicas que no ano passado tomaram forma. Como em qualquer outra situação limite, algumas coisas acabam sendo questionadas. Ela é limite justamente porque é a fronteira entre uma coisa e outra. É um lugar onde tudo é tênue, incerto, abstrato. E por isso, recorrentemente inóspito.

Julie nasce nesse contexto. Repare, perde-se uma pessoa pra vida, outra pra morte. Noções básicas sobre a viabilidade do amor, a finalidade da vida, o lugar que te cerca, o outro lugar que te espera…acabam virando tema central da vida da pessoa. Era um pouco disso que passava na minha cabeça enquanto fazia o Julie. Mas além disso, eu queria que fosse um filme leve. Nunca o vi de outra forma. Foi a minha maneira de abordar um tema que pra mim era pesado.

Acrescento ao mosáico de coisas que me levaram a fazer esse filme, o encantamento que a cidade de Goiânia sempre produziu em mim desde que cheguei. Apesar de sempre ter vivido a menos de 100 Km de lá, só nós do interior sabemos como é diferente estar fora da capital. A distância não se mede em Kilômetros.
Eu sempre exerci sobre Goiânia um olhar curioso. Sobretudo sobre o centro da cidade, epicentro da minha vida e dos meus amigos onde tantas vezes eu andei ao meio-dia ou à meia-noite. Também sempre achei muito estranho como a cidade transita entre o conservador e o libertário, o agrário e o urbano. É uma cidade paradigmática.

O filme é todo narrado em francês, mas a questão principal não é essa. Sendo a história toda narrada por uma Suiça, é natural que ele seja narrado em Francês. Então a questão é: Por que uma Suíça? A arte também tem um papel exorcizante. Às vezes escrevo pra tomar carinho por coisas que de outro modo eu não conseguiria. Por exemplo: a partir de certa época comecei a ter implicância com o nome Lucas, por razões de ordem pessoal. Pra resolver essa questão batizei meu personagem do meu segundo filme, Faltam duas quadras, de Lucas. Foi uma maneira de eu acabar com isso e tratar o tema com menos solenidade. Com Genebra, Suíça, foi a mema coisa. Eu queria me obrigar a conviver com essa cidade, ainda que em 2010 ela tenha sido pra mim motivo de dor e despedida. Mas não, não é sadismo. É coragem de se enfrentar.

Eu e o Beny, Diretor de arte do filme, decidimos que seria um filme sem medo de excessos. Até porque o roteiro nos permitia uma certa liberdade na montagem dos figurinos e na criação do espaço visual onde a Julie circularia. A Julie é essa menina contemporânea, colorida, que transita pelo centro cinza, envelhecido. Uma imagem dessa Goiânia de contrastes. Aliás, essa uma uma abordagem que tem se tornado recorrente no novo cinema feito em Goiás, especialmente pelo núcleo embrionário de pessoas que deram origem à Panaceia Filmes e seus parceiros. Por exemplo, o filme da Larissa, o Enquanto, e do Beny, o Eu já não caibo mais aqui também tem essa abordagem. Ambos se apropriam da paisagem do centro da cidade conferindo a ela uma significação que extrapola sua territoriedade. Isso tem a ver com resignificar um lugar, retirá-lo do seu estado de regionalidade e conferi-lo universalidade.
Era isso que eu sentia quando o
Julie estreou. As pessoas se identificavam com a paisagem, mas exerciam sobre ela um novo olhar, menos viciado. Eu ouvi de algumas pessoas que saíam do cinema: “Eu nunca tinha reparado que…”

Quando a Julie, uma Suíça, transita pela cidade e exerce sobre ela um olhar reflexivo a cidade é revisitada em seus clichês e suas peculiaridades. Isso atribui ao lugar uma esfera totalmente pessoal e por isso universal. Aquela conversa já batida de quanto mais se fala do seu quintal, mais se fala do mundo. Então quando a Julie está sob o coreto da Praça cívica não é pra mostrar um ponto turístico, modelo de art decó, nem pra reforçar um esteriótipo da visualidade goianiense. É justamente o contrário; é pra resignificá-lo.

Ela é uma pessoa que está aprendendo a enxergar. Não só a cidade, mas a vida. É um filme de tomada de consciência. Com um caracter meio pessimista, admito. Mas era também a minha maneira de enxergar. Eu queria ser bem fiel a isso. O filme todo se passa como se a Julie tivesse esfregando os olhos pra ver melhor. E o fim não quer dizer ter conseguido enxergar, mas ter chegado a uma conclusão.

Eu queria que a imagem tivesse o tratamento similar a de uma polaroide. E pra isso rolou toda uma pesquisa. Mas não era pra ficar igual, era uma referência. Eu queria que o filme fosse um retrato instantâneo do meu momento porque daqui há pouco eu poderia já estar pensando diferente. Então eu queria que fosse o que a poloróide é: o império do agora.

Fico feliz de ter feito um filme que fale assim tão abertamente de Goiânia, sem pudor de me exceder ou faltar. Sinto que é uma retribuição que dou a uma cidade que me deu tanto. E acho especialmente bonito o fato de o lançamento ter sido no Cine Cultura. Apesar das adversidades, sempre quis que fosse lá por um motivo: Eu queria muito que as pessoas após saírem da sessão se dessem de cara com o coreto, elemento tão importante na trama. Eu queria propiciar essa experiência ao público. E não foi em vão. Após o filme, vi algumas pessoas que conversavam em animadas rodas e apontavam ocasionalmente pro coreto e depois riam umas pras outras. Eu também ri, resplandecido. Olhei pro coreto e fui pegar mais um chopp.

 

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 05h17 PM
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29/03/2011


Texto 1

Quero manter essa tristeza. Quero preservá-la intocável, ou melhor, irretocável. Quero nutri-la do que pra mim é fome. Fazendo com que gradativamente eu seja ocupado por aquilo que me des-habita. Porque a tristeza é isso: estar preenchido do que lhe falta. Saudade é diferente: é estar vazio do que lhe preenche.

Eu quero conservar essa tristeza porque ela é o que restou de nós. E porque ela é física; músculo, sono. Mais: ela é fisiológica: gastrite, vômito. Eu quero essa tristeza porque assim te sinto perto. Eu prefiro você me fazendo mal, que fazendo nada.Porque eu sofrer é a prova inefável que você existe. E você existir aplaca um pouco o meu pesar de existir.

Por isso eu quero me manter muito atento a essa poeira que entra lentamente por essa janela. Ela me lembra o véu translúcido através do qual eu enxergo o  mundo. Porque eu sempre vi as coisas assim; como que enevoadas por uma poeira. Eu tenho um certo problema de aquilatação. E não sabendo dimensionar, eu acho linda a imagem daquele poema onde a mulher já cansada de brigar com o namorado diz: Eu estou cansada. E eu te amo. Se você quiser pode me bater.

Eu carrego essa tristeza como uma mãe leoa carrega seu filhote, com muito carinho, mas sem cuidado, pegando-lhe pelo dente como se educasse batendo. Trago esse pesar com disciplina, com sacerdócio e com dureza para que pouco a pouco enquanto eu lhe supro, ele me mate e enquanto eu sumo, ele padeça como duas coisas que se refutam, mas invariavelmente se precisam.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 08h02 AM
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27/03/2011


Homeopaticamente

A lembrança só me ocorre quando já me esqueci. Sofro homeopaticamente. Tenho o estranho hábito de sempre chegar atrasado ao sentir.
Geralmente as coisas só me aclaram quando elas já não fazem mais sentido nenhum. Sofro de um delay sentimental. Estou sempre a um passo. O que quase quer dizer não chegar.

É quando eu já quase me esqueço que eu começo a lembrar.


 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 12h22 AM
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04/02/2011


5 minutos

Faltavam exatamente 5 minutos. Eu tinha absoluta certeza que esse era o tempo que restava. Eu me movia ansioso na cadeira, encarava o relógio com severidade. Faltavam 5 minutos. Mas eu não sabia pra quê. Um grande momento se aproximava, mas qual momento? A vida, nesse instante, me vinha como uma insinuação, uma vagueza de ideia. Eu presentia a vida. Eu a espreitava.

Levantei, peguei um cigarro que estava jogado em cima da mesa de centro e fui até a cozinha. Na falta de fósforo,  o acendi o na chama do fogão elétrico. Fiquei olhando a fumaça bater no forro de gesso e sumir pela janela. Só no terceiro trago me lembrei que não fumo. Nunca fumei. A ansiedade provocou em mim um surto de intimidade com a nicotina. Eu não conseguiria mais viver, durante aqueles minutos, sem o cigarro.

Fique assim encostado na soleira da porta olhando pela janela o céu alaranjado. Eu não tossia. Repare: havia intimidade. Enquanto fumava, enquanto olhava, eu pensava que possivelmente agora faltariam menos de três minutos. Eu estava mais calmo. O desenho da fumaça subindo, correndo…gerava em mim uma compreensão de fugacidade, da não permanência das coisas. Mas era inegável. Faltavam uns 3 minutos.

E ainda fumando, ainda olhando e pensando que possivelmente faltariam uns 3 minutos, eu lembrei do que a Clara havia me dito noite passada. Era alguma coisa sobre ter o espírito livre, eu acho. Eu quis ligar pra ela. Dizer: Clara, faltam uns dois minutos. Cadê você? Mas ela não entenderia. E eu não queria gastar meus dois minutos explicando. Eu queria aproveitar o mundo, aquele estado de coisas, antes de ele se transformar no que seria daqui a dois minutos. Eu era a testemunha viva de um rito, um momento de passagem. Eu queria estar atento.

Terminei o cigarro e o apaguei, amassando-o contra o azulejo da parede. Ao entrar na sala tive uma estranha sensação. Parecia que eu não estava entrando aonde ia, mas onde fui. Era como se eu estivesse retrocedendo, mas sem deixar de caminhar pra frente. Sentei na mesma cadeira. Olhei pro mesmo relógio. Faltavam 5 minutos. Não era possível que após fumar um cigarro todo ainda faltavam 5 minutos. Levantei-me afobado e fui até à cozinha. Quando meu primeiro pé tocou o ladrilho senti nitidamente que o tempo se esgotava. De onde estava, olhei pro relógio. Faltavam 50 segundos. Fui até onde fumei o cigarro e conferi ali a mancha causado no azulejo pela cinza do cigarro. Voltei às pressas pra sala pra dali comtemplar o momento inefável e desconhecido. Mas chegando lá, o relógio apontava: faltavam 5 minutos.

Minha respiração acelerava. Era possível que nesse momento, na cozinha, tudo já estivesse se dado. Eu compreenderia então que momento era esse tão esperado, esse momento que parecia ser o motivo final de todos os outros motivos. Corri pra sala. Minto. Não corri. Desminto. Não lembro bem se corri. Sei que fui afoito, mas sei que me lembro de cada pedaço desse trajeto. Coisa que alguém correndo não lembraria. Mas também lembro de estar ofegante. A questão é que o pequeno trajeto de menos de 3 metros entre um cômodo e outro, pareceu uma diáspora. Entrei na cozinha cansado, esgotado. Segurei com as duas mãos na pia e de cabeça baixa respirei ali algum tempo. Ao recuperar o fôlego, olhei pra trás e vi o relógio na sala marcando: não faltava nenhum minuto. Aliás havia passado um. Quando olhei pra frente, vi um homem encostado na soleira da porta fumando um cigarro, olhando pela janela. Parecia jovem, fumava como um jovem, olhava como um jovem. Eu me aproximei lentamente. Ele, sentindo meus passos, virou-se. Era eu. Era eu aquele jovem. Aquele que era eu não se importou com aquele que sou eu e virou o rosto. Continuou olhando pela janela, fumando. Eu jamais havia estado tão perto de mim. Eu não podia acreditar. Continuei me movendo em minha direção. Ia devagar, eu não queria me assutar. Quando já estava tão perto que era possível ouvir minhas respirações, resolvi tocar o ombro do jovem que eu fui. Mas ao fazê-lo o jovem evaporou-se e subiu junto a fumaça do cigarro, se misturando, bateu no forro de gesso, sumiu pela janela. Dissipou-se. Foi a última coisa que eu vi.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 04h41 PM
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