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19/11/2009


Enquanto

Tiro com regularidade a poeira dos móveis, limpo de joelhos o chão. Esforço-me para alcançar o mais profundo recôncavo escondido embaixo da cama. Rego a planta com abnegação e limpo um a um os livros da estante. Tudo isso para que quando você vier, encontre em minha casa um lugar mais habitável.
         Asseio o fogão, tiro as mais repugnantes gorduras das panelas. Empilho meus livros e cds de uma forma a lhe impressionar pelo conteúdo e pela disposição. Fora isso, tenho lido seus versos prediletos para que quando você chegar não falte assunto entre os silêncios que nós escolhermos.
        Sei de cor seus filmes mais queridos e podemos até brincar de encenar uma cena ou outra após bebermos o vinho que comprei pra te esperar. Vinho esse que após tanto tempo, vejo-o lentamente se transformar em vinagre. Como vejo o chão adquirir um aspecto opaco após tanta limpeza e como vejo a planta morrendo afogada, as panelas furadas, livros dispostos numa regularidade patética, como um museu vazio que ninguém visita.
         Começo a desconfiar que você não venha mais, que talvez não retorne. É bem provável que você nunca tenha ido e que essa solidão que me acompanha sempre tenha havido como uma espécie de saudade ao contrário. É, eu começo a desconfiar que você nunca tenha existido.


Escrito por Jarleo Barbosa às 11h20 AM
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06/08/2009


Voltando

 

 Entrei no ônibus. Estava atrasado. Havia um só assento vago. Sentei. Tratava-se de um assento reservado para gestantes, idosos e deficientes físicos. Como não havia ninguém em pé, me sentei. Nos pontos seguintes, foram entrando pessoas. Muitas pessoas. Eu observava com atenção se alguma delas parecia ter um pouco mais de idade, ou se tinha alguma deficiência, ou estava grávida. Fechei os olhos por um segundo e pensei que preferiria fica em pé a ter que administrar essa pequena preocupação.

Ao abrir os olhos, uma mulher tinha surgido de repente à minha frente. Ela parecia grávida; usava roupa de grávida, tinha cara de grávida, mas apesar de gordinha, não tinha barriga de grávida. A partir desse momento fui dilacerado pela dúvida atroz: ceder ou não o assento?

A mulher não olhava diretamente pra mim; olhava pela janela do ônibus como se olhasse da varanda de sua casa a cidade se movendo. E o fato de ela não me olhar, me absolvia em certo sentido e me livrava da possibilidade de ouvir diante de todos, caso ela não estivesse grávida:

__Tá me chamando de gorda?

Mesmo assim eu sentia que o aviso que indicava que aquele assento era reservado para idosos, gestantes e deficientes físicos estava colado na minha testa, estampado na minha camisa. Qualquer olhar me era recriminador, qualquer tosse um aviso, qualquer freada um presságio. O ônibus passou a ser um lugar inóspito, o trajeto uma tortura.

Desci do ônibus quatro pontos antes de onde eu pararia. Preferi fazer o resto do caminho a pé e chegar atrasado a continuar com aquela sensação que o ônibus não chegaria nunca, que estava parado, ou pior: dando ré. Refazendo o caminho ao contrário, voltando para o mesmo lugar onde entrei e eu voltando para o mesmo lugar de onde saí, depois voltando para o lugar de onde vim, depois sendo criança de novo, voltando a engatinhar pra depois voltar pra dentro da barriga da minha mãe enquanto ela, no ônibus, espera um lugar pra sentar.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 01h20 AM
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17/07/2009


Diálogo

 

 __A gente podia namorar, não sei...

__Olha, nada contra você, mas eu gosto muito de ficar sozinha, sabe?!

__Ah! Eu também gosto.

__(...)

__Então, a gente podia ficar sozinhos juntos.

 


 

Escrito por Jarleo Barbosa às 04h07 AM
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Idas e vidas

   O motor roncou, o motorista deu ré, um bocado de poeira se levantou, primeira marcha, se foi.
   Uma mulher não se abateu com o fato de o ônibus ter sumido no horizonte e continuou abanando os braços, em despedida; como se fosse mais uma satisfação a ser dada a si mesma que à pessoa que se ia.
   Talvez por cansaço, ela abaixou os braços e interrompeu os acenos; foi o que pensei vendo aquela mulher de costas com um ar de esposa que se despede do marido marinheiro em um cais qualquer e aumenta, com seu choro, consideravelmente o nível de água do mar.
Mas quando ela se virou, passou do meu lado, percebi; era a saudade. A saudade quando vem, faz baixar também os olhos. E a maré cheia em seu olhar, era a forma líquida do silêncio da ausência.
   Atrás dessa mulher veio um rapaz também cabisbaixo, como convêm andar em rodoviárias e aeroportos, tilintando um molho de chaves, como se o barulho trouxesse algum ar de euforia e disfarçasse o cinza dos seus passos. Passou por mim também; alegre como quem assobia uma marcha fúnebre.
   De meu, naquele ônibus, tinha ido um bocado de palavras, uns tantos cheiros, umas juras, uns pensares, uns dedos, uns medos, umas datas, meus vinte anos; como uma bagagem extraviada.
   A poeira que se levantaou com a partida, há de baixar em outro lugar. Aqui não. Pois o mesmo ônibus que se foi ali e que vai atravessar cidades, é o mesmo que faz a viagem do sonho pra realidade.

 


Escrito por Jarleo Barbosa às 04h05 AM
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12/07/2009


Eu: poesia de mim

Esse é um post atípico.

Pra quem não sabe, eu tenho um livro publicado. É um livro de poemas chamado Eu: poesia de mim. Geralmente, aqui no blog, eu coloco mais textos em prosa, mas quem quiser conhecer também o meu trabalho com poesia e tiver interesse em comprar o livro, fica aqui o email pra contato.

contato.jarleo@gmail.com

Até.

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 03h36 PM
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05/07/2009


Cordis

O acaso em mim nunca teve morada. Eu sempre soube de cor o que dizer e o que ouvir.
          E quando aquele moço veio me dizer pra eu seguir de olhos fechados, eu não entendi e disse que assim eu me perdia. Ele se riu todo e disse que era bobagem minha, que esse caminho eu já sabia todo, antes mesmo de nascer. Eu tentei dizer que tinha memória fraca, ele falou que não era uma questão de lembrança, mas de intuição. Eu argumentei que de adivinhação eu era ainda pior, só que ele falou que intuir é prestar atenção em algo que a gente já sabe. Eu falei pra ele ir um pouco comigo, pra me dar a mão. Ele respondeu que não. E disse que quando a gente é bebê, a gente aprende a equilibrar o peso do corpo num passo atrás do outro, mas que andar sozinho é coisa que a gente só aprende mais velho e sem ninguém ensinar, nem segurar a mão. Nessa hora eu não soube o que dizer e ele num quis dizer mais nada não. E ficamos calados como se o silêncio é que nos tivesse feito e não o contrário.

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 12h30 AM
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04/06/2009


Trecho

 

A forma que ela me olhou foi de tal discrição que chegou a ser escandalosa. O jeito que ela me olhava tinha uma certa naturalidade que não cai bem a mulheres como ela. Mulheres como ela não olham com naturalidade, olham como se ao mesmo tempo em que vissem, deixassem de ver. Como se esquecessem antes de saber.

E quando ela virou aquele corredor e a parede impediu que nos víssemos por mais alguns segundos, eu tive a completa certeza de que ali, eu a havia perdido pra sempre. Mas ela não sabe disso, não saberá. Ser abandonado é uma dor solitária. Não porque alguém te deixou, e sim pela sensação de que amanhã, ou depois, esse alguém voltará. Nada mais solitário que estar sempre prestes a estar acompanhado.

 


 

Escrito por Jarleo Barbosa às 12h28 AM
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18/04/2009


Líquido

Da minha pele sai um líquido, encharca a camisa, pinga no chão como se em mim fosse março o ano todo e, dia após dia, essas águas fechassem o verão. Uma pessoa mais distraída que passasse, diria se tratar de calor. Mas é que não é só isso. Do meu olho também sai líquido, coisa que me atrapalha porque desde pequeno eu não gosto de mergulhar com os olhos abertos. Uma pessoa mais distraída que passasse, suporia que choro. O líquido que sai dos olhos vai descendo e se mistura com o líquido que sai da pele e eu tenho a vaga impressão que não foi o mar, mas sim dentro de mim que virou sertão. E não é só isso. Porque minha calça também está molhada. Se aquela mesma pessoa distraída passasse, juraria que eu me mijei todo. O que ela não sabe, o que não leva em conta em seu prognóstico, é que o amor, em mim, é um processo fisiológico.

Escrito por Jarleo Barbosa às 12h53 AM
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11/02/2009


Cotidianices

O dia-a-dia estraga a vida.

Viver, deveria ser,

um dia sim,

outro não.

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 12h41 PM
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05/02/2009


Modernidade

A modernidade inventou o indivíduo, o indivíduo dividiu o átomo e o átomo dividiu o mundo. A modernidade prometeu o tudo, e quem tinha tudo, inventou o lucro, e quem tinha lucro, dividiu o mundo. A moderna idade queria, no fundo, só por um segundo, poder ter liberdade. Não sabia ela, olha que maldade, que essa liberdade é que divide o mundo.  

Escrito por Jarleo Barbosa às 11h28 AM
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26/01/2009


Clarinha

 

Clara tinha 4 anos quando foi à praia pela primeira vez. Assim que viu o mar, pensou que ele devia molhar mais que um rio, já que era maior.

Mais tarde, após os primeiros mergulhos e uma observação minuciosa, descobriu que as ondas eram o mar espirrando.

E já ao fim do dia, andando com sua mãe pela areia, Clara foi assaltada por uma curiosidade típica das crianças e, portanto, cruel:

 

­__Mãe, qual o nome da água-viva depois que ela morre?

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 06h28 PM
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07/01/2009


Ele

     Ele padecia de um tipo de timidez existencial. Não quer dizer que fosse pouco, era até bastante, aliás. O que lhe faltava, em certa medida, era talento pra vida. Certas pessoas têm esse dom, ele não. No mundo, ele parecia visita.
     Ele não se encaixava, ele era antes, ele era sem. Carregava consigo um certo descompromisso em existir. Era o tipo de pessoa que acompanha a própria sombra, e não o contrário. A verdade é que sua existência era tão frágil que sua sombra era opaca.
     Outro dia o vi andando pelo parque. Quis chamá-lo, cumprimentá-lo, mas seu nome se travou em algum lugar dentro de mim e eu não pude lembrá-lo. Então ele passou com aquele andar de quem cuida pra não errar o passo seguinte, mas erra invariavelmente.
     Só quando o vi se afastar e se perder na paisagem do parque da cidade, me dei conta de que, na verdade, nem sei mesmo se ele tinha nome.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 03h39 PM
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29/11/2008


Galo

 

Clara arrumava o apartamento, se perfumava, esquentava o jantar e ele sempre voltava. Na hora marcada, ele sempre voltava. Clara, era como um galo que acha que seu cantar é que amanhece o dia, e não o contrário.

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 01h43 AM
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02/11/2008


Esquina


Não mais que três horas da tarde e Dona Odácia segurava firme as mãos da filha Neide na esquina da rua Itauama com a São Sebastião.

Não só a testa, o corpo todo da matriarca franzia. A filha não entendia. Mas respeitava as ondulações no rosto e no caráter da mãe. Ficava calada, quieta.

Dona Odácia, volta e meia, olhava pro horizonte, se punha na ponta dos pés e lançava a vista como se quisesse alcançar o começo da rua Itauama, como se esperasse alguém, ou mais; como se esperasse ninguém.

Neide, com seus cinco anos, já tinha se acostumado com a dureza seca da mãe. Dona Odácia, até pra elogiar, era rude. Tinha gravidade da voz das mulheres que saem do nordeste pra vender barato o amor no centro-oeste e que depois passam a limpar a casa dos outros, com a amargura de quem limpa o chão todo santo dia, e não se limpa.

__Ah, ta chegando...vem vindo, vem vindo.

Dona Odácia disse essas palavras enquanto enxugava a testa molhada de suor. Depois se abaixou, arrumou o vestido da filha e a olhou nos olhos, não pela primeira vez, mas como se fosse; porque é assim que as pessoas se olham pela última vez.

Neide não sabia do tom de despedida do momento. Mal olhou para os olhos da mãe, ficou mesmo é reparando uma ferida perto do nariz dela e perguntou:

__Machucou, mãe?

Dona Odácia, dura como uma verdade ao meio-dia, se limitou a responder:

__É que a mãe foi coçar e machucou, filha.

Mal Dona Odácia acabava de falar o vocativo, um casal se aproximou. Neide só percebeu a chegada pela sombra que os dois fizeram em cima dela. Não conseguiu enxergar direito os dois.

Dona Odácia se levantou, deu boas tardes ao casal e conversou algo com a mulher que não se pôde escutar devido ao barulho de carros na rua.

O homem ficou olhando Neide, meio que sorrindo, meio que não. Olhava-a como se a acariciasse com os olhos.

Fez-se um silêncio.

Dona Odácia limpou as mãos suadas na saia e se chegou pra trás pra pegar na mão de Neide. E foi dizendo:
__Vem filha, você vai com essa moça. Ela vai te levar pra um lugar bom, desses bonito de morar, sabe?! Vê se num faz mal-criação e não desobedece. Daqui uns dias a mãe vai visitar você...

Apesar de entender tudo o que se foi dito, Neide ainda não tinha idade pra perceber a amplidão do que ouviu. Não mexeu mais de cinco músculos faciais ao pular da mão da mãe para a mão da senhora. Não ficou triste, nem feliz. Estava com fome.

Dona Odácia se despediu da filha e do casal com sorrisos breves se virou de costas. Começou a andar. Só anos depois Neide perceberia que nada é mais piedoso do que esconder o choro com as costas.

A moça chamou Neide três vezes até conseguir tirá-la do seu transe hipnótico, seu olhar parado na figura da mãe diminuindo a cada metro. Quando Neide olhou pra ela, a senhora perguntou:

__Tá com fome, Neide? Quer comer algo?

Neide aceitou com a cabeça. Pôs-se a andar de mãos dadas com aquela mulher ao lado daquele homem. Ainda olhou pra trás. Dona Odácia ainda estava de costas, mas agora já tão longe, tão longe que Neide já não a reconhecia mais.

 

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 12h56 PM
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18/09/2008


Maria Amélia

 

Maria Amélia era uma pessoa esquecida. Tudo começou sem muito alarde. Um dia, um de seus tios lhe perguntou a sua idade. Sem se lembrar exatamente, disse que tinha quatro anos. Mas Maria não mentiu por mal, somente se esqueceu que tinha apenas três aninhos e, para satisfazer os olhos curiosos do tio sobre ela, disse que tinha quatro.

Já um pouco mais velha, Maria aprendeu que não podia manter nada em sua mão. Não era seguro. Qualquer fosse o valor do que estivesse entre seus dedos, não diminuía o risco de, de repente, Maria soltá-lo pela rua. Ela soltava, tinha a mão aberta. Ao contrário de Midas, tudo que ela tocava, virava passado, perdia o valor.

Maria esquecia de ligar a luz. Entrava no quarto e não se dava conta da escuridão. Tinha dificuldade para se movimentar, para encontrar o que queria, mas não se atinava. Assim como só se atinava que estava descalça depois de sair de casa.

Uma vez, na adolescência, a menstruação pegou Maria desprevenida. Como não havia ninguém em casa, foi ela quem foi à farmácia comprar absorvente. Mesmo constrangida e aflita, comprou, pagou e agradeceu. Só quando voltou, vendo o sangue se escorrer pela sua perna, percebeu que havia esquecido o absorvente no balcão da farmácia.

O primeiro filho dela veio precocemente. Ela e o rapaz que havia conhecido há duas horas, se esqueceram de usar o preservativo. Não é que o desejo tenha sido tão voraz que tenha tomado conta das decisões dela e a tenha impedido de interromper o ato para colocar a camisinha. É que Maria simplesmente não lembrou.

Quando se casou com o pai do seu segundo filho, teve medo de esquecer o que dizer no altar. Mas lembrou de cada palavra. A única coisa que esqueceu nesse dia e nos próximos vinte cinco anos foi de amar o marido.

Quando voltou da lua de mel e retornou ao trabalho, ao fim do expediente, foi direto pra casa da mãe. Só quando colocou o carro na garagem, se lembrou de que não morava mais ali e que agora estava casada.

Incontáveis as vezes que esqueceu de buscar os filhos na escola, de levá-los à natação, de verificar se a mamadeira estava muito quente, de perguntar como havia sido o dia dos dois, de sentar ao lado deles, de contar história, de brigar, de censurar, de corrigir os maus hábitos. Maria, parecia, se esquecia de ser mãe.

Só bem mais velha quando a cadeira de roda já lhe servia de pouso e o Alzheimer lhe fazia companhia, ela realmente se esqueceu. Um dia, os dois filhos foram visitá-la. Quando viu ambos entrar pela sala, quis imensamente lembrar o nome dos dois. Pensou até no quanto eles haviam crescido. Mas quando ambos se aproximaram, ela teve medo porque já não reconhecia aquelas duas pessoas. Nunca as tinha visto antes.

Foi quando agosto chegou. Fazia calor e Maria passava o dia calada, sentada na cadeira, olhando o jardim. Parecia até que ela nunca mais iria esquecer de nada porque, na verdade, não havia mais nada pra lembrar. Parecia que Maria estava cansada e queria pela primeira vez, conscientemente, de propósito, esquecer. Ela, então, fechou os olhos e morreu completamente.

Na sua lápide ficou escrito:

 

Aos 28 dias do mês de agosto do ano de 2008,

Maria Amélia Monteiro se esqueceu de viver.

Escrito por Jarleo Barbosa às 10h57 PM
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