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18/04/2012


Superfície

Digo distraidamente: são seis e pouco da tarde. Você ouviu, mas pergunta outra vez. Eu respondo cansado: seis horas...seis e alguma coisa. Você se consterna. E no silêncio rubro da tarde eu percebo que o contato não nos aproxima. Porque eu sou do avesso. A minha superficie ninguém nunca viu porque tá dentro. O que eu mostro é o profundo.

E exatamente por isso, fico meio acanhado de deitar no seu colo. Volto a dizer: minha superfície é impenetrável. E você, sem saber, vai acarinhar meu cabelo, enquanto fala da fila do supermercado. É o profundo que sua mão acarinha. E então eu me levanto assustado, porque nenhum profundo consegue ser assim tocado como se o mundo se encerrasse no físico. A superficie é o que delineia o dentro.

Prossigo: Eu me levando assustado e num canto de olho percebo que no seu colo ficaram as caspas tiradas à carinhos da minha cabeça. Eu já não me reconheço nesses pedaços soltos de mim. Você, num ato de amor, não se limpa, iludida de que assim nossas superfícies se encontram. Porque você não sabe que nem a mim me pertenço. Sou o que consigo ser a despeito de mim. Digo isso sem reverberar, sem me preocupar como soa. Porque não sou oco; dentro de mim nada ecoa.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 01h36 AM
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19/12/2011


O quadro

Eu apontei pra parede e disse que o quadro ficaria bom ali, um pouco descentralizado. Você concordou, eu bati o prego e você o pendurou. Ficamos assim, sentados em silêncio; observando a proporção parede/quadro. Em silêncio concordamos que aquele definitivamente era o lugar. Sorrimos orgulhosos.

Mas apesar do consenso, nem eu, nem você dizíamos nada. O silêncio foi se adensando como que se inflando de todas as palavras não ditas. Nós dois ali sabíamos profundamente de alguma coisa que a gente não fazia ideia do que era. Mas eu sabia, por exemplo, que aquele quadro pendurado à nossa frente tinha alguma coisa a ver com a busca pelo sublime, pelo etéreo. Eu me lembro bem de quando você viu essa imagem pela primeira vez e disse que ela lhe fazia desacreditar um pouco na ruindade do mundo. E então ela assim na parede da nossa sala, dá a impressão que o mundo é plausível. E que sendo plausível, seja justo.

E só agora sob o peso desse silêncio eu entendo algo que você escreveu há uns dois anos na última folha do meu bloco de anotações: o meu amor por você estende-se pro mundo. É só agora olhando essa parede branca invadida por um quadro, vendo o sol invadir a janela e fazer um desenho de luz e sombra no seu rosto, começo a entender que quem ama alguém, ama o mundo inteiro. Porque o amor torna a vida possível.

E nesse vago momento de olhar um quadro, está oculto os quilômetros que nós andamos, as vezes que bati à sua porta, o fato de eu saber sua marca preferida de ketchup, nosso hábito de ir domingo ao parque, as vezes que comprei o seu absorvente, ou que ri do jeito da sua tia. Está completamente imerso nesse silêncio aquela sexta-feira quente que servi cerveja no seu copo e o sábado à tarde que limpei a poeira embaixo da sua cama, ou as vezes que não sabíamos se virávamos aqui ou na outra esquina. Porque eu te olhei dormindo e continuei andando; quilômetros, quilômetros, quilômetros. E atravessei o oceano.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 01h53 AM
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18/11/2011


Esfinge

 

Um dos meus mais secretos desejos é o de me tornar uma esfinge. Não sentir nada, não pensar nada e sobretudo não falar nada. Permanecer assim; oniponente, reta, impassível.

Tenho, sempre tive, uma ânsia por dizer, mas tão logo as palavras saem da minha boca ou caem no papel, vem o arrependimento. Não gosto de arcar com o que digo. Porque não digo como quem quer dizer, mas como quem não pode não dizer.

Eu falo pra que o dentro saia, por um vontade de vazio, um desejo de ser leve; pra me despir de qualquer vontade, pra me limpar, pra me santificar.

Tenho ficado cada vez mais silencioso. Escrevo uns versos assim pequenininhos porque tenho dito mais com os espaços do que com as palavras. Quanto mais falo, menos me explico e menos entendo dos outros e de mim. E as melhores lembranças que tenho não foram lendo, nem ouvindo, nem falando; foram em silêncio. No escuro.

Não dizer com os olhos, não dizer com as mãos, não dizer com o corpo. Calar-me de dentro pra fora. Completamente.  A ponto de o silêncio não ter sequer significado. Porque nada que eu possa dizer muda o fato de que nada pode ser dito, ainda que possa ser compreendido.

Queria poder não precisar transformar as coisas em palavras. Porque ao serem ditas as coisas passam a existir. E existindo eu preciso lidar com elas e pra lidar com elas preciso de outras palavras que criam outras coisas que criam outras palavras, que criam outras palavras, que criam outras palavras…

Espero o dia em que eu, esfinge, encare o deserto com um olhar suave e silencioso. Mas nem suave será porque não haverá palavra pra dizer isso, e nem vai ser deserto e nem vai ser esfinge e nem vou ser eu.

 


 

Escrito por Jarleo Barbosa às 11h34 AM
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19/04/2011


Julie, Agosto, Setembro

 

Em 2010 eu vivi minha experiência mais pragmática e dolorida com o universo da perda. Isso de alguém morrer ou ir embora eram pra mim imagens meramente simbólicas que no ano passado tomaram forma. Como em qualquer outra situação limite, algumas coisas acabam sendo questionadas. Ela é limite justamente porque é a fronteira entre uma coisa e outra. É um lugar onde tudo é tênue, incerto, abstrato. E por isso, recorrentemente inóspito.

Julie nasce nesse contexto. Repare, perde-se uma pessoa pra vida, outra pra morte. Noções básicas sobre a viabilidade do amor, a finalidade da vida, o lugar que te cerca, o outro lugar que te espera…acabam virando tema central da vida da pessoa. Era um pouco disso que passava na minha cabeça enquanto fazia o Julie. Mas além disso, eu queria que fosse um filme leve. Nunca o vi de outra forma. Foi a minha maneira de abordar um tema que pra mim era pesado.

Acrescento ao mosáico de coisas que me levaram a fazer esse filme, o encantamento que a cidade de Goiânia sempre produziu em mim desde que cheguei. Apesar de sempre ter vivido a menos de 100 Km de lá, só nós do interior sabemos como é diferente estar fora da capital. A distância não se mede em Kilômetros.
Eu sempre exerci sobre Goiânia um olhar curioso. Sobretudo sobre o centro da cidade, epicentro da minha vida e dos meus amigos onde tantas vezes eu andei ao meio-dia ou à meia-noite. Também sempre achei muito estranho como a cidade transita entre o conservador e o libertário, o agrário e o urbano. É uma cidade paradigmática.

O filme é todo narrado em francês, mas a questão principal não é essa. Sendo a história toda narrada por uma Suiça, é natural que ele seja narrado em Francês. Então a questão é: Por que uma Suíça? A arte também tem um papel exorcizante. Às vezes escrevo pra tomar carinho por coisas que de outro modo eu não conseguiria. Por exemplo: a partir de certa época comecei a ter implicância com o nome Lucas, por razões de ordem pessoal. Pra resolver essa questão batizei meu personagem do meu segundo filme, Faltam duas quadras, de Lucas. Foi uma maneira de eu acabar com isso e tratar o tema com menos solenidade. Com Genebra, Suíça, foi a mema coisa. Eu queria me obrigar a conviver com essa cidade, ainda que em 2010 ela tenha sido pra mim motivo de dor e despedida. Mas não, não é sadismo. É coragem de se enfrentar.

Eu e o Beny, Diretor de arte do filme, decidimos que seria um filme sem medo de excessos. Até porque o roteiro nos permitia uma certa liberdade na montagem dos figurinos e na criação do espaço visual onde a Julie circularia. A Julie é essa menina contemporânea, colorida, que transita pelo centro cinza, envelhecido. Uma imagem dessa Goiânia de contrastes. Aliás, essa uma uma abordagem que tem se tornado recorrente no novo cinema feito em Goiás, especialmente pelo núcleo embrionário de pessoas que deram origem à Panaceia Filmes e seus parceiros. Por exemplo, o filme da Larissa, o Enquanto, e do Beny, o Eu já não caibo mais aqui também tem essa abordagem. Ambos se apropriam da paisagem do centro da cidade conferindo a ela uma significação que extrapola sua territoriedade. Isso tem a ver com resignificar um lugar, retirá-lo do seu estado de regionalidade e conferi-lo universalidade.
Era isso que eu sentia quando o
Julie estreou. As pessoas se identificavam com a paisagem, mas exerciam sobre ela um novo olhar, menos viciado. Eu ouvi de algumas pessoas que saíam do cinema: “Eu nunca tinha reparado que…”

Quando a Julie, uma Suíça, transita pela cidade e exerce sobre ela um olhar reflexivo a cidade é revisitada em seus clichês e suas peculiaridades. Isso atribui ao lugar uma esfera totalmente pessoal e por isso universal. Aquela conversa já batida de quanto mais se fala do seu quintal, mais se fala do mundo. Então quando a Julie está sob o coreto da Praça cívica não é pra mostrar um ponto turístico, modelo de art decó, nem pra reforçar um esteriótipo da visualidade goianiense. É justamente o contrário; é pra resignificá-lo.

Ela é uma pessoa que está aprendendo a enxergar. Não só a cidade, mas a vida. É um filme de tomada de consciência. Com um caracter meio pessimista, admito. Mas era também a minha maneira de enxergar. Eu queria ser bem fiel a isso. O filme todo se passa como se a Julie tivesse esfregando os olhos pra ver melhor. E o fim não quer dizer ter conseguido enxergar, mas ter chegado a uma conclusão.

Eu queria que a imagem tivesse o tratamento similar a de uma polaroide. E pra isso rolou toda uma pesquisa. Mas não era pra ficar igual, era uma referência. Eu queria que o filme fosse um retrato instantâneo do meu momento porque daqui há pouco eu poderia já estar pensando diferente. Então eu queria que fosse o que a poloróide é: o império do agora.

Fico feliz de ter feito um filme que fale assim tão abertamente de Goiânia, sem pudor de me exceder ou faltar. Sinto que é uma retribuição que dou a uma cidade que me deu tanto. E acho especialmente bonito o fato de o lançamento ter sido no Cine Cultura. Apesar das adversidades, sempre quis que fosse lá por um motivo: Eu queria muito que as pessoas após saírem da sessão se dessem de cara com o coreto, elemento tão importante na trama. Eu queria propiciar essa experiência ao público. E não foi em vão. Após o filme, vi algumas pessoas que conversavam em animadas rodas e apontavam ocasionalmente pro coreto e depois riam umas pras outras. Eu também ri, resplandecido. Olhei pro coreto e fui pegar mais um chopp.

 

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 05h17 PM
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29/03/2011


Texto 1

Quero manter essa tristeza. Quero preservá-la intocável, ou melhor, irretocável. Quero nutri-la do que pra mim é fome. Fazendo com que gradativamente eu seja ocupado por aquilo que me des-habita. Porque a tristeza é isso: estar preenchido do que lhe falta. Saudade é diferente: é estar vazio do que lhe preenche.

Eu quero conservar essa tristeza porque ela é o que restou de nós. E porque ela é física; músculo, sono. Mais: ela é fisiológica: gastrite, vômito. Eu quero essa tristeza porque assim te sinto perto. Eu prefiro você me fazendo mal, que fazendo nada.Porque eu sofrer é a prova inefável que você existe. E você existir aplaca um pouco o meu pesar de existir.

Por isso eu quero me manter muito atento a essa poeira que entra lentamente por essa janela. Ela me lembra o véu translúcido através do qual eu enxergo o  mundo. Porque eu sempre vi as coisas assim; como que enevoadas por uma poeira. Eu tenho um certo problema de aquilatação. E não sabendo dimensionar, eu acho linda a imagem daquele poema onde a mulher já cansada de brigar com o namorado diz: Eu estou cansada. E eu te amo. Se você quiser pode me bater.

Eu carrego essa tristeza como uma mãe leoa carrega seu filhote, com muito carinho, mas sem cuidado, pegando-lhe pelo dente como se educasse batendo. Trago esse pesar com disciplina, com sacerdócio e com dureza para que pouco a pouco enquanto eu lhe supro, ele me mate e enquanto eu sumo, ele padeça como duas coisas que se refutam, mas invariavelmente se precisam.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 08h02 AM
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27/03/2011


Homeopaticamente

A lembrança só me ocorre quando já me esqueci. Sofro homeopaticamente. Tenho o estranho hábito de sempre chegar atrasado ao sentir.
Geralmente as coisas só me aclaram quando elas já não fazem mais sentido nenhum. Sofro de um delay sentimental. Estou sempre a um passo. O que quase quer dizer não chegar.

É quando eu já quase me esqueço que eu começo a lembrar.


 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 12h22 AM
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04/02/2011


5 minutos

Faltavam exatamente 5 minutos. Eu tinha absoluta certeza que esse era o tempo que restava. Eu me movia ansioso na cadeira, encarava o relógio com severidade. Faltavam 5 minutos. Mas eu não sabia pra quê. Um grande momento se aproximava, mas qual momento? A vida, nesse instante, me vinha como uma insinuação, uma vagueza de ideia. Eu presentia a vida. Eu a espreitava.

Levantei, peguei um cigarro que estava jogado em cima da mesa de centro e fui até a cozinha. Na falta de fósforo,  o acendi o na chama do fogão elétrico. Fiquei olhando a fumaça bater no forro de gesso e sumir pela janela. Só no terceiro trago me lembrei que não fumo. Nunca fumei. A ansiedade provocou em mim um surto de intimidade com a nicotina. Eu não conseguiria mais viver, durante aqueles minutos, sem o cigarro.

Fique assim encostado na soleira da porta olhando pela janela o céu alaranjado. Eu não tossia. Repare: havia intimidade. Enquanto fumava, enquanto olhava, eu pensava que possivelmente agora faltariam menos de três minutos. Eu estava mais calmo. O desenho da fumaça subindo, correndo…gerava em mim uma compreensão de fugacidade, da não permanência das coisas. Mas era inegável. Faltavam uns 3 minutos.

E ainda fumando, ainda olhando e pensando que possivelmente faltariam uns 3 minutos, eu lembrei do que a Clara havia me dito noite passada. Era alguma coisa sobre ter o espírito livre, eu acho. Eu quis ligar pra ela. Dizer: Clara, faltam uns dois minutos. Cadê você? Mas ela não entenderia. E eu não queria gastar meus dois minutos explicando. Eu queria aproveitar o mundo, aquele estado de coisas, antes de ele se transformar no que seria daqui a dois minutos. Eu era a testemunha viva de um rito, um momento de passagem. Eu queria estar atento.

Terminei o cigarro e o apaguei, amassando-o contra o azulejo da parede. Ao entrar na sala tive uma estranha sensação. Parecia que eu não estava entrando aonde ia, mas onde fui. Era como se eu estivesse retrocedendo, mas sem deixar de caminhar pra frente. Sentei na mesma cadeira. Olhei pro mesmo relógio. Faltavam 5 minutos. Não era possível que após fumar um cigarro todo ainda faltavam 5 minutos. Levantei-me afobado e fui até à cozinha. Quando meu primeiro pé tocou o ladrilho senti nitidamente que o tempo se esgotava. De onde estava, olhei pro relógio. Faltavam 50 segundos. Fui até onde fumei o cigarro e conferi ali a mancha causado no azulejo pela cinza do cigarro. Voltei às pressas pra sala pra dali comtemplar o momento inefável e desconhecido. Mas chegando lá, o relógio apontava: faltavam 5 minutos.

Minha respiração acelerava. Era possível que nesse momento, na cozinha, tudo já estivesse se dado. Eu compreenderia então que momento era esse tão esperado, esse momento que parecia ser o motivo final de todos os outros motivos. Corri pra sala. Minto. Não corri. Desminto. Não lembro bem se corri. Sei que fui afoito, mas sei que me lembro de cada pedaço desse trajeto. Coisa que alguém correndo não lembraria. Mas também lembro de estar ofegante. A questão é que o pequeno trajeto de menos de 3 metros entre um cômodo e outro, pareceu uma diáspora. Entrei na cozinha cansado, esgotado. Segurei com as duas mãos na pia e de cabeça baixa respirei ali algum tempo. Ao recuperar o fôlego, olhei pra trás e vi o relógio na sala marcando: não faltava nenhum minuto. Aliás havia passado um. Quando olhei pra frente, vi um homem encostado na soleira da porta fumando um cigarro, olhando pela janela. Parecia jovem, fumava como um jovem, olhava como um jovem. Eu me aproximei lentamente. Ele, sentindo meus passos, virou-se. Era eu. Era eu aquele jovem. Aquele que era eu não se importou com aquele que sou eu e virou o rosto. Continuou olhando pela janela, fumando. Eu jamais havia estado tão perto de mim. Eu não podia acreditar. Continuei me movendo em minha direção. Ia devagar, eu não queria me assutar. Quando já estava tão perto que era possível ouvir minhas respirações, resolvi tocar o ombro do jovem que eu fui. Mas ao fazê-lo o jovem evaporou-se e subiu junto a fumaça do cigarro, se misturando, bateu no forro de gesso, sumiu pela janela. Dissipou-se. Foi a última coisa que eu vi.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 04h41 PM
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11/12/2010


Colóide

Quando eu era mais novo e pensava que o amor acabava, me intrigava saber quando.
Quando duas pessoas deixam de se amar? Qual o exato momento em que elas olham uma pra outra e pensam: eu não te amo mais!?

Quando eu era mais novo eu pensava que o amor existia como um organismo vivo que nasce, cresce, reproduz e tem necessariamente seu fim. E que qualquer tentativa de subverter isso, era agir contra a lógica natural das coisas. Hoje eu acho que o amor não acaba nunca. Não acaba porque ele necessariamente não nasce. Ele não começa, ele não termina. O amor é uma matéria que não se define enquanto estado. O amor é um colóide.

O que começa e termina é a nossa capacidade de estar atento, o despreendimento pra nos entregarmos, nossa pré-disposição para o ridículo, a humildade de nos vermos pequenos, a disciplina de não sermos sozinhos...isso passa, isso tudo passa. Mas o amor permanece ali, como uma sombra que fosse também vapor e que pesasse. Porque o amor é assim, e também não é. O amor só é possível na dúvida, na incapacidade de admiti-lo como tal. A plenitude é o escudo dos que têm medo de sofrer.

As pessoas que se amaram estão condenadas ao amor que tiveram. Mesmo que cesse o mistério, que não haja mais falta, ciúme, tesão, graça... O amor persiste como uma prova inconteste de que viver não foi em vão. Porque amar é admitir-se vivo. E nós não somos quem amamos, nós somos porque amamos.

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 11h40 AM
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07/12/2010


Solidão

Toda aquela coisa crua do corpo, a enevoada tentativa frustrada de santidade, a imensa vontade de fazer de nós uma coisa só...
Tudo isso se registrou ali, naquele momento. Mas eu percebia que pouco a pouco eu lhe perdia, até o momento onde de um lado do mundo estava você e do outro eu, separados por tudo que não era gozo. Não existe solidão maior do que eu ser eu e você ser você.

Escrito por Jarleo Barbosa às 03h03 PM
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09/11/2010


Fluxo

     É estranho como de repente sobre a superfície das coisas nasce uma nova camada, quase sempre muito mais grossa e impenetrável que a anterior. Transfigurando assim a experiência do toque, subvertendo então a relação que antes era somente tátil, sensitiva. A partir daí o ato de aproximar-se ou não fica na base dos pró e contras, do valer a pena.
     É estranho como as coisas caminham silenciosamente quando ninguém as vigia e quando damos por nós elas já estão em um distância tão irremediável que só o que nos resta é remediar a falta. Entendo mais uma vez que existir é calcular distâncias, conjugar espaços com certa destreza a fim de que a solidão não se torne algo insuportável.
     É absolutamente estranho como as coisas se comunicam numa linguagem tão própria que nós parece um código decepado de sentido feito justamente para desautorizar o que autoriza. Porque as coisas não fazem ou deixam de fazer sentido, o parâmetro é outro. As coisas fluem. É preciso de grande despreendimento pra aceitar a falta de fluxo continuo das coisas. Porque ao contrario de nós, as coisas estão. E isso é tudo.

Escrito por Jarleo Barbosa às 03h57 PM
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25/10/2010


Escadaria

A beleza dela tinha a ver

Com o jeito calmo em que ela subia

Um

      Por

           Um

Os degraus da escadaria

Como se deixasse embaixo

O tempo

E subisse ao próximo andar

Como se ascendesse aos céus.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 12h55 AM
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24/10/2010


Solidão

 

Ela não lia poemas que falassem de orvalho e da beleza das flores ao amanhecer. Ela não via filmes em que o sol da tarde incide sobre os personagens enquanto eles se amam. Ela era totalmente intransigente no gostar. Gostava de gostar forte do que gosta porque tinha a sensação que assim não se esqueceria de não gostar do que não gosta. Odiava também algumas coisas, mas nisso, era mais flexível. Odiava, por exemplo, ler textos na tela do computador, mas gostava de ver curta-metragens no youtube. Gostava de beijar de olhos abertos, mas odiava que a beijassem assim. Ela odiava blogs e só acreditava em uma notícia que lesse na Internet se depois a visse estampada em algum jornal impresso. Aliás, ela me disse certo dia que a maior das solidões é ter um blog. Eu acho que não, penso que solidão pior ainda é a dela, que só existe enquanto esse texto durar.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 03h27 PM
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03/09/2010


Momento

      Acho que nasci pra ver as cores pesando sobre as coisas. Como um arco-íris que derrete e cai sobre a terra dando vida ao que outrora era destituído de ternura.
      Eu nasci pra ver esse sol que corta diametralmente o rosto da garota como se a materialidade de sua carne fosse porosa como o tempo. Eu nasci pra ver a garota com as costas da mão esquerda enxugar o calor de sua testa enquanto o sol lhe atravessa e a cor lhe circunda como se lhe espreitasse. É pra esse momento que eu existo. É pra ele que eu nasci.

Escrito por Jarleo Barbosa às 12h39 AM
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27/05/2010


Sobre poucas coisas

Hoje acordei, meu bem, e tive medo. Medo porque o dia não amanheceu, só clareou. Eu olhei pro alto e não era noite, e não era dia. Parecia que o céu estava num estado de vigília. Você entende, meu bem, parecia com essas pessoas que não fazem companhia, fazem presença.

Tomei o meu banho pra tirar o sono do corpo, não tomei café pra não sentir enjôo no ônibus e saí. E logo na saída do meu prédio eu vi um homem dormindo na rua, meu bem. E isso não era o pior, ele dormia sob aquele céu, aquele céu. Triste homem dormindo sob a incerteza.

O fato é que não parei. O que dei ao homem foram alguns segundos de silencioso questionamento. Ele não sabe, nunca saberá.

Mais tarde, um profundo sentimento de tristeza me invadiu. Eu percebi que não sei mais escrever, meu bem. Eu não sei mais dispor os silêncios entre as coisas que eu quero dizer. Toda vez que eu tento, dói. Dói porque parece que é um parto ao contrário, como se gestasse um filho no mundo e depois ele entrasse em mim pra morrer.

Ai, amor, eu não sei mais escrever. E o que eu faço agora com as palavras que eu vejo por trás e por entre as coisas? Antes a vida já me vinha escrita, agora não. Era só preciso atenção para transcrevê-la. Agora eu preciso traduzi-la. E não consigo. Antes meu ridículo era bonito, agora é só ridículo.

E então eu quis escrever um poema de amor, sabe? Mas lembrei do homem dormindo no chão. Que quer ele do amor, do amor romântico? Eu fiquei achando que o amor é luxo pra quem só tem sobre a cabeça aquele céu. E fiquei com vergonha, meu bem. Eu sempre preferi pessoas a idéias. Pessoas são frágeis. E eu queria cultuar isso nelas; eu não queria enganá-las. E fiquei triste, amor, porque agora tudo que eu podia fazer era fingir.

Mais tarde, assistindo o noticiário, eu franzia a sobrancelha como quem se estranha ao espelho. Então noticiavam a chegada do Papa a algum país. Saiba, meu bem; quando eu o vi chegar com seu rebanho, pela primeira vez, não senti pena. Não senti. Eu me senti confortável. Ao andar pelas ruas da cidade, o sumo pontífice estava dentro de um carro, e era um Mercedes, e era blindado. Blindagem, que segundo o jornal, suportaria tiro de fuzil e explosões. Se até o papa, tem medo de morrer, ah, meu bem, nós estamos livres pra temer qualquer porvir.

Vendo o Papa dentro do Mercedes, eu acreditava nele. Um Papa dúbio, de meios sorrisos, meias palavras, que condena o aborto e a camisinha. A única idéia de Deus possível é um Deus que acorde de ressaca e arrependido.

O que eu sei é que o dia foi passando e eu me sentia cada vez mais sozinho porque o dia não vinha, a noite também não. As horas passaram não exatamente devagar, mas displicente. E o céu não era céu, era só uma menção.

E quando voltei pra casa, o homem não estava mais lá, meu bem. Restava no chão somente o papelão sobre o qual ele dormiu. Eu não consigo parar de pensar:

Será que ele ou a gente consegue se esconder do céu?

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 01h52 AM
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28/12/2009


Vazio

Hoje, quando acordei, percebi que a casa tinha um vazio que não era comum. Um homem reconhece o vazio de sua casa. Exatamente por isso eu sabia que aquele não era um vazio habitual. Era como se alguma espécie de coisa houvesse ocupado lugar, mas não espaço. Uma presença fugidia. Aquele vazio não era o conhecido, portanto, não oco. Nem por isso preenchido. Era um vazio diferente. Um vazio vazado, como se habitado justamente pelo que lhe desabita.

Era um vazio que dava a impressão de poder ser tocado, mas ao mais leve movimento das mãos, percebia-se que se tratava de algo translúcido, algo com forma, mas sem consistência, uma espécie de sombra que independe de um meio material para existir.

Parecia que tudo existia em silêncio, secretamente. As coisas eram as coisas, mas destituídas do sentido primeiro de suas existências. Como se fossem antes de ser. Tudo estava devidamente em seu lugar, mas idéia de lugar estava alterada. As coisas ocupavam seus lugares onde? Não havia onde. Aquele vazio não se delimitava. Entre o que eu olhava e eu mesmo havia uma distancia inalcançável de tão próxima, à medida que estava tudo irremediavelmente longe. Tudo, todas as coisas que existiam eram sós. E tudo que era só, estava vazio.


Escrito por Jarleo Barbosa às 09h46 PM
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