E era tão triste tudo o que lia que, por respeito, vestiu-se de preto pra continuar a leitura.
E era tão triste tudo o que lia que, por respeito, vestiu-se de preto pra continuar a leitura.
As mãos do menino contornavam o dedo da mãe. Era domingo.
No parque de diversões fazia sol. Um palhaço suado andava de um lado pro outro anunciando os brinquedos. Uma mulher branca, de vestido colorido, cabelo preto, cercada por três anões de roupas também coloridas, ficava na entrada do parque distribuindo mapas e recebendo os visitantes.
O telefone toca. A branca de neve interrompe um sorriso que dava a uma criança, vai até a sua bolsa e atende o celular. As feições dela agora mudam. Os pequenos que por ali passam, a olham com certa estranheza; talvez não estivessem acostumados a ver uma princesa de história encantada franzindo a testa e olhando pro chão como se cavasse um abismo com os olhos.
Um pouco depois ela percebe que é o destino de certos olhares. Afasta-se um pouco de onde estava; vai pra perto do banheiro, encosta-se à parede.
E enquanto falava, enquanto ouvia, sem que quisesse, uma lágrima caiu dos olhos da branca de neve, descendo pelo seu rosto, passando pelo pescoço, chegando ao decote; como uma avalanche.
Os autores escondem que princesas também têm namorados ciumentos, que sofrem com depilação, que têm prisão de ventre. E mais, ocultam o fato de toda história ser encantada; mesmo que não relatada.
Branca de neve após desligar o telefone, foi ao banheiro, limpou seu rosto, retocou a maquiagem e com toda majestade que se é esperada, voltou ao seu posto pra distribuir mapas e saudações.
O menino ainda estava de mãos dadas com a mãe. Olhava tudo como se não quisesse lembrar de nada, como se daqui vinte anos, não fosse lembrar de tudo. Até do cheiro das cores.
Já na entrada sorriu pra uma mulher bonita que entregou um papel pra sua mãe e lhe sorriu de volta. Depois ficou olhando a mãe conversar com um palhaço. Pareciam já se conhecer. Ela o tratava por Evandro. É estranho pensar que, depois do expediente, aquela criatura colorida tire a vestimenta, calce sapatos do tamanho dos pés, atenda pelo nome de Evandro. Talvez até tome anti-depressivo e chore antes de dormir.
O menino ficava olhando o palhaço sem pensar nada disso. É porque ele nunca tinha visto um assim tão de perto. E mais perto ainda de sua mãe. Aliás, uma mãe que conversa com um palhaço na frente do filho, tem toda credibilidade pra falar pra esse mesmo filho que papai Noel existe.
A conversa termina, Evandro se despede, faz uma graça qualquer com o menino e segue. E só agora reparamos que anda um pouco curvado o palhaço. Se quem narra essa história fosse um poeta, certamente explicaria tal postura dizendo ser conseqüência de seu serviço; fazer rir é carga por demais pesada sobre os ombros.
Mas como não, esse modo de andar é explicado por uma sifose mesmo.
Mãe e filho voltam a caminhar, sem muito destino, apesar do mapa.
Param em um carrinho de pipoca. Ela escolheu de sal, ele de doce. Não pelo gosto, mas pelas cores. Ao passar um homem que vendia balões de gás, a mãe lhe chama e compra um pro filho.
O menino até se esquece da pipoca, fica olhando, segurando aquele balão.
Mas na verdade, era o balão que segurava a infância pelo cordão.
O dia ia se indo. As cores vitais, do que outrora foi luz, morriam mais além.
As primeiras estrelas, ao alto, já se espreguiçavam.(Triste inevitabilidade de quem vive pra brilhar).
E vinha ela, toda cheia de si, nascendo no horizonte como a esperança.(Só que bem mais pontual)
Desnecessários eram os faróis na estrada, de tão claro, tão escuro. É que de lá, lá de cima, a lua ardia como um sol; um segundo sol.
E era eu, era eu ali falando de lua, como poeta clichê e piegas que sou.
Mas são tantas coisas que não digo, repetindo exaustivamente.
Tudo que não quis dizer, MAS nunca disse.
Eu só queria que meus olhos azuis também anoitecessem.
Quando enfim caí, gelado, na sala de espelhos, meus reflexos foram morrendo um por um;como um último suspiro eterno; um gerundio que não finda.
É que sem você, a cama ficou grande demais.
Sobra muito de mim sobre o lençól.
Coberto de saudade, durmo com frio.
Abra as portas do seu ventre
e faça do seu corpo
minha sala-de-estar-para-sempre.
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BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, Homem