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19/11/2006


Estação

 

Sentou-se no banco de madeira que ficava em frente ao local de embarque da estação. Ficou a olhar as crianças brincando perto da plataforma. Inocentes, elas ainda não sabem que o pior silêncio é aquele que vem depois que o trem se vai, aquele que paira no ar misturado à fumaça e que tem o exato gosto do mais absoluto nada. Em vinte minutos o trem partiria.

Ela se viu no horizonte, imaginou-se dentro da locomotiva cortando aquele descampado, sumindo por entre o verde do campo encharcado de setembro. Fechou os olhos. Abriu. Não, não queria se lembrar. Aliás, metade sua (e mais um pouco) queria, só um pedaço grande que não. Deixou-se lembrar. Fechou os olhos de novo. Abriu. Dessa vez os olhos e a bolsa. Tirou de dentro dela um papel um pouco amassado, que dizia: meu desejo é um oásis em meio à paisagem morta do teu beijo. Ela não gostou dos escritos, mas guardou, não gostou do modo como ele dispôs as palavras e principalmente não gostou do que leu nos espaços vazios entre uma palavra e outra. Mas guardou, guardou porque aquele bilhete estava acima de suas preferências estilísticas.

Num ímpeto, dobrou o papel, colocou na bolsa e a fechou. Como se a bolsa fechada fechasse também alguma coisa aberta dentro dela. É que ela era criança correndo na estação, também inocente; fugindo de coisas que ela levaria consigo no trem.

Logo mais estaria na capital, agosto seria só uma lembrança, dessas que se responde ao ser perguntado: Ah, sim, foi muito bom, muito agradável. O clima estava ótimo. Foi isso que ela pensou, não exatamente nessa ordem e nessas palavras, mas pensou. Estava aérea, seu olhar (como ela) se perdia com facilidade. Não conseguia se livrar do lembrar, vinha à sua boca o gosto salgado das noites na fazenda, sentia até os cheiros que sentiu outrora, seu corpo levemente se estremeceu por dentro. Uma lágrima caiu. Não era de tristeza nem de alegria. É que não coube mais dentro dela tanta lembrança. O sentimento, quando é demais, recorre à fisiologia.

O trem já estava saindo. Ela se levantou, olhou pra um lado, pro outro. Não, ele não vinha. Subiu com vagar os degraus que davam acesso ao interior da locomotiva. Olhou no bilhete o número de sua cabine; sete, o mesmo da vinda. O trem também era o mesmo, o caminho também. Só ela que não. A moça de chapéu branco que desceu há trinta dias nessa estação, não voltará pra capital; deixou-se ficar no banco de madeira em frente ao embarque.

Escrito por Jarleo Barbosa às 11h32 PM
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11/11/2006


Praia

 

 

Eu sempre quis morar na praia; ter o mar ao alcance dos pés...Pra que quando eu estivesse imerso, coberto de água e sal, eu pudesse quase nem nascer, como um retrovisor vital, o retorno ao conforto.

Eu sempre quis morar na praia foi por saudade.

 

O mar é o útero de Deus.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 07h07 PM
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