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27/03/2007


Carolina



Eu tinha medo da vida. Carolina não. Estava sempre reta, intacta, como se o mundo lhe fosse uma brisa que ela sabia de onde vinha. Carolina era daquele tipo de gente que quando lê um livro, parece estar relendo-o, porque já tem aquilo tudo como sabido. E se o faz, é pra se rememorar e manter a impressão de que alguém, um dia, ainda pode lhe ensinar algo.

Eu nunca fui muito de escrever, já Carolina...Carolina escrevia como quem toma banho. Não é que precisasse daquilo antes de tudo, mas quando faltava, ia dando uma coceira, uma coceira...Até que Carolina não se agüentava, se sentava em um lugar , qualquer lugar, tirava seu caderninho do bolso e escrevia. Às vezes lhe vinha só uma frase, outras vezes escrevia vinte, trinta páginas, o caderno inteiro, até onde lhe desse na telha. Carolina nasceu pré-matura e sobre isso ela dizia: “é que eu tinha pressa de nascer logo pra poder escrever”. Eu nunca perguntei o que ela escrevia, mas um dia quando o assunto acabou, depois de um silêncio, ela falou: “eu escreve história tão triste que eu nem acredito que consigo sem chorar”. Mas Carolina não era triste. Eu sim. Ela tinha um jeito qualquer que eu não sabia bem se era alegria ou deboche, paixão ou demência. Mas Carolina sorria, sobretudo sozinha. E as pessoas felizes sempre sorriem sozinhas. Eu é que não. Eu era sisudo, achava tudo meio duro, todo sol muito quente. Carolina ria quando perdia o ônibus. E eu perdia era o riso nas perdas.

Um dia Carolina disse que gostava de nuvens. Eu falei que era engraçado gostar de uma coisa que ficava assim tão longe. E Carolina disse que eu não entendia nada de amor. Eu realmente não sabia, mas sabia de uma coisa: Carolina era cruel. Era cruel porque sabia que sabia e não se envergonhava que soubessem que ela sabia. Eu sempre achei engraçado como as pessoas faziam força pra escutar Carolina falar. Ela não falava muito alto, mas qualquer coisas que dissesse era ouvida com uma atenção...como se estivesse fazendo o discurso de posse da presidência de um planeta não descoberto.

Eu sempre achei engraçado. Era como se ela fizesse grandes discursos sussurrados.
Na verdade, eu tinha era medo de Carolina. E até falei pra ela uma vez. E ela me disse: “Eu também tenho”. Eu me assustei com a resposta, fiquei com medo de ela ter medo e reperguntei: “de mim?” E ela: “não, de mim”.
Carolina não sabia contar piada, mas era engraçada. No seu jeito, era engraçada. Pelo menos eu achava. Na verdade eu acho é que amava Carolina. Mas eu acho que ela era tão grande dentro da sua estatura média que eu não teria amor pra preencher todos o vazios dela. Porque foi ela que me disse que tinha a alma toda furada. E não me deixou sentir pena, disse que ficava mais leve pra voar.

Não sei, mas se amei Carolina, tratei de desamar porque eu achava que Carolina era pessoa que nasceu pra ser sozinha. Porque, fora suas histórias, ela não era triste nada, eu acho. E eu também acho que é meio difícil amar alguém que não seja um pouco triste.

Carolina ria de mim. Era a única. Dizia que gostava de ouvir minhas histórias porque parecia que abria um baú no escuro. Eu sorria sem entender e prosseguia.
Vez ou outra Carolina me incendiava o pensamento, dizendo coisas como quem põe o pé na água, mas não entra e me enchia de quase verdades e meias loucuras.
E quando eu já nem me sabia eu dizia: “Carolina, o pecado mora ao lado, Carolina” E ela respondia: “mora, mas é de aluguel, é de aluguel”  


 

Escrito por Jarleo Barbosa às 10h31 PM
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