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23/09/2007


A última canção

 

Carlos queria a música perfeita. Seus dedos já estavam calejados devido ao constante contato com as cordas do violão. Foram dias, noites e amanheceres que Carlos permaneceu trancado em si em seu quarto.

Carlos queria uma música que matasse todas as fomes, que tirasse os paraplégicos para dançar, que fizesse chorar os soldados, que afagasse os oprimidos, que consolasse os desenganados, que animasse os deprimidos, que salvasse os suicidas, que velasse os sonos todos, que acordasse os atrasados, que guiasse os perdidos...

Os sons, potencialmente, dizem tudo porque, especificamente, não dizem nada. Carlos queria uma musica universal que, tanto um americano quanto uma árvore, fosse capaz de entendê-la. Cada um a seu modo: dando flores ou chorando.

Carlos, então, foi para seu quarto. Fez uma música. Mas não, ela ainda não gritava a todos. Ele queria uma música que acarinhasse o ouvido dos surdos. Fez outra. A janela estava fechada. Carlos a abriu. Não, tudo estava igual: carros corriam e pessoas suavam. A música que Carlos queria, alteraria a força da gravidade e faria tudo menos sério e grave.

Carlos não notou, mas um dia passou, dois e mais uns. Em um de seus dedos, a carne já aparecia. No violão, havia um rastro de sangue endurecido que tinha escorrido no dia anterior. Mas Carlos não notou. Nem a fome pôde com ele. Parecia que Carlos se nutria de arpejos, acordes, metáforas, anáforas. Só a urina e as fezes lembravam a Carlos que existia uma vida que não aquela. Porém, lá ia ele com o violão para dentro do banheiro e depois voltava pro quarto para moer seus dedos e sua alma na busca da seqüência melódica perfeita.

Dez, vinte, trinta, trinta e duas músicas depois e a perfeição sonora não havia chegado. Agora Carlos já gritava de dor a cada batida no violão. O sangue no chão se misturava ao salgado do seu choro. Por isso, o vermelho tinha um tom mais claro, quase rosa. O ápice da dor é quando o sangue se dilui na lágrima. Mas Carlos não desistia; atravessava as horas com a coragem de um santo, ou de quem não se sabe enganado.

Quando anoiteceu, a mãe de Carlos foi procurá-lo, dado que seu sumiço a havia preocupado. Ninguém atendeu quando ela bateu à porta, mas uma mãe prevenida, sempre faz, em escondido, uma cópia da chave da casa do filho que mora sozinho. E a mãe de Carlos era dessas; justificava essa pequena indelicadeza com o aval do carinho e do cuidado.

Ao entrar, não havia ninguém na sala. Então, ela o foi procurar no resto da casa. Chamava por ele com a doçura das mães que disfarçam a preocupação. Ao abrir a porta do quarto, deu um pulo pra trás e levou a mão esquerda à boca. O chão estava repleto de sangue e deitado sobre o sangue, Carlos já sem os dedos da mão direita. Sobre Carlos, o violão.

A mãe, sem entender, supôs desde assassinato à abdução.

Carlos foi mandado para o IML. A polícia entrou no caso. Segundo o delegado, aquilo parecia ser tortura seguida de assassinato. Porém, ele não sabia dizer os motivos do possível crime e nem o porquê de os possíveis bandidos não levarem nada da casa e nem como eles haviam entrado no apartamento de Carlos sem arrombar a porta. Seria vingança? O delegado se perguntava e ele mesmo não podia se responder.

Os dois médicos legistas que fariam a autópsia de Carlos olhavam com estranheza aquele corpo. Faltavam os dedos, mas não havia marca de tortura. O olho estava fundo, mas, segundo a polícia, ninguém o tinha visto chegar tarde em casa. Nem mesmo tinham visto Carlos sair de casa.

Apesar de já morto, a pele de Carlos mantinha uma aparência quase sadia. Sim, percebia-se que era um cadáver, mas um dos legistas chegou a dizer que aquele era o morto menos morto que tinha chego ali naquele mês. Após essa brincadeira, um deles pegou o bisturi e começou a fazer um corte logo abaixo do peito de Carlos.

Logo que a pele foi cedendo e se abrindo, no primeiro centímetro cortado, o médico que realizava o procedimento parou. Havia um barulho do lado de fora do prédio, bastante barulho. Mas era uma espécie de barulho harmônico. O ruído parecia, de certa forma, se organizar. O médico pediu pra sua assistente segurar o bisturi um instante e foi até a sala ao lado para, da janela, ver o que estava se passando. Quando abriu a janela, por pouco não se cegou. Era tanto, mas tanto o verde que havia invadido a grama, era tão, mas tão azul o céu que havia se posto sobre o mundo que suas visão demorou um tempo para se acostumar. Fora isso, pessoas se abraçavam e bailavam de mãos dadas a alguns centímetros do chão. Parecia que a primavera havia desrespeitado o verão e chegado. Cresciam flores nos muros.

Ao voltar para a sala de autópsia, já chorando e sorrindo, o médico se deparou com o outro médico e todas as assistentes dançando lívidos pela sala de cadáveres enquanto, do pequeno corte feito na barriga de Carlos, saía uma luz colorida.

 

  

Escrito por Jarleo Barbosa às 11h36 AM
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