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30/01/2008


Grego

 

Penso logo: existo?

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 12h23 AM
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23/01/2008


O cinema

 

O cinema é cruel porque mente no escuro, porque me ilude quando eu já não estou seguro, porque deixa uma música ao fundo e se vai. Mas se vai tão gatuno que me faz pensar que está.

O cinema é cruel porque o seu silêncio é tudo que eu queria falar, porque não se deixa desvendar, porque me faz achar que meu desejo não só me pertence e que talvez nem seja meu, porque me deixa com medo no breu.

Porque também me expõe ao ridículo na frente de todos, porque me trai com todos, porque me cobra atenção, dinheiro, disposição e ainda me faz ficar grato se acaso eu tiver chorado.

O cinema é um modo de sadismo delicado.

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 11h14 PM
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Clarividência

 

 

__Tenho tantos medos que me dá até medo de contar.

Foi o que ela me disse com a voz trêmula, como se isso fosse o réquiem de uma verdade ainda maior que estava por vir. Eu, por minha vez, me limitei a olhá-la com uma certa compaixão que não transparecesse muita piedade.

Clara tinha 21 anos de medo. Segundo ela, nasceu de um parto muito complicado. Horas e horas passou sua mãe em cima da maca esperando que Clara viesse ao mundo pelas mãos do Dr. Gregório. Dentre outras complicações, havia nascido com o cordão umbilical enrolado ao pescoço. Clara não queria nascer, aliás, queria, mas tinha medo. Desde o seu nascimento, o medo de Clara era isso: querer e não querer ao mesmo tempo.

Agora, aos 21 anos, Clara se arrastava pela vida como se trouxesse atada aos pés um peso que não lhe permitia se locomover muito bem. Se existe uma palavra para Clara, essa palavra é: retida. Clara tinha amigos, sorria, bebia, beijava, viajava, Clara era toda do mundo, mas não se permitia ter o mundo todo pra ela. Clara era ao tipo de pessoa implícita.

            __Eu tenho medo de começar a te contar e faltar palavras. Ela continuou.

            Eu disse pra ela que ficasse calma, que é normal a gente se perder ao falar dos medos e não saber o que dizer. Mas ela respondeu:

            __Não é que eu não saiba como dizer. Eu tenho medo é de faltar palavras no mundo todo, de não haver como falar.

            Clara é do tipo de gente que desde pequena se interessa por línguas. Quando criança pediu que a mãe lhe matriculasse em um curso de Alemão. A mãe tentou persuadi-la dizendo que talvez seria melhor aprender primeiro o inglês já que lhe seria mais útil. Mas não houve quem desse jeito. Clara, então, aprendeu primeiro Alemão, depois inglês, depois italiano e agora, com 21 anos, estuda francês. Mas o interessante é que Clara é o tipo de gente que quer aprender todas as línguas do mundo, mas para ficar calada. Parece que quanto mais línguas Clara aprender, melhor é o diálogo dela consigo mesma e menor e o diálogo dela com os outros.

            Clara saiu da cadeira onde estava, veio até mim, me abraçou, começou a chorar e disse:

            __Agora mesmo, eu estava com medo de te abraçar.

            Naquele momento, os medos dela, os meus, os outros que pairavam, viraram uma coisa só. Eu, ela e os medos viramos um monólito.

            Quando o abraço terminou, ela enxugou os olhos com a mão e sorriu constrangida do molhado que havia deixado no meu ombro. Eu ainda consegui pegar com o dedo um pouco de lágrima dela que tinha sobrado em seu rosto e então coloquei meu dedo em minha boca.

            __Agora vai nascer um pé de tristeza dentro de você. Ela disse.

            O que ela não sabia é que aquela lágrima dela dentro de mim funcionaria como uma espécie de soro antiofídico. Não quer dizer que a partir da tristeza dela eu havia de encontrar a felicidade. O que houve de fato foi que a lágrima dela percorrendo meu corpo deu beleza a cada medo meu que antes era só triste. Entendi, então, que quem tem uma tristeza bela, não precisa de felicidade. Entendi, enfim, que aquele choro era o estado liquido da sinceridade.

           

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 11h13 PM
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06/01/2008


Retórica

Ela:
É difícil pra vocês, homens, entenderem o que a gente quer dizer quando não diz algo claramente?
Ele:
Am?!

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 04h46 PM
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03/01/2008


A virada de Evaristo

 

Era dia 31. E era dezembro. Evaristo saiu do banheiro enxugando o rosto na camiseta. De repente, fez-se um silêncio na cozinha. A família de Evaristo estava toda ali, uns sentados à mesa ajudando nos preparativos para a ceia de logo mais à noite, outros em pé conversando e outros apenas atrapalhando mesmo. Todos se calaram subitamente.

Evaristo estava na entrada da cozinha, parado, olhando seus parentes, que o olhavam de volta com um ar de estranhamento produzindo o típico peso do silêncio que antecede às gargalhadas. E foi assim que aconteceu. O primeiro a rir foi seu sobrinho, depois o vírus da espontaneidade contagiou o resto das pessoas. A perplexidade ganhou som.

__ Mas o que é isso, tio? Pergunta o sobrinho.

__ Uai, até parece que eu nasci de bigode. Responde Evaristo.

Depois de 25 anos, Evaristo havia abandonado o bigode. Agora, entre a boca e o nariz, havia um pedaço de pele quase virgem, carente de sol, carente de ser visto depois de mais de duas décadas de exílio. Com a precisão de um luthier, Evaristo aparava seu bigode através dos anos. Não houve vez que alguém dissesse que talvez ele tivesse se esquecido de cortar os pelos, ou então que os tivesse cortado demais. Evaristo era pontual e implacável consigo.

__ Ano novo, vida nova. Completou Evaristo.

Para ele, tirar o bigode era se livrar de uma idéia de passado, era estar aberto, era única coisa que ele ainda podia fazer para si. A mulher, tão amada, estava longe, longe de casa. Os filhos, já crescidos, se afastavam cada vez mais do que ele havia ensinado ano a ano. O emprego, o mesmo. Evaristo era representante de vendas. Era um homem da estrada, vivia viajando. E de tanto viajar, já há muitos anos, começou a pensar que todas as estradas levam mesmo é a lugar nenhum.

 As risadas foram se silenciando e um silêncio quase absoluto pairava na cozinha. Os familiares olhavam para Evaristo como se ele fosse um intruso, sem se lembrarem que aquela era a cozinha da casa de Evaristo e sem saberem que com ou sem bigode é Evaristo que se sentia um intruso ali ou em outra cozinha, em qualquer lugar. Evaristo não se achava. Era um intruso em si.

Foi ele quem quebrou o gelo e retomou o assunto. Disse que se sentia mais jovem e que há muito tempo pensava em tomar essa atitude. Porém, esse não era o primeiro passo para as mudanças no próximo ano na vida de Evaristo, era sim o único passo.

Para Evaristo raspar aquele bigode era, na verdade, aparar as arestas do futuro.

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 03h25 AM
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