As fomes são duas. Uma é a do faminto, a outra do suicida. Assim como quem sabe da felicidade é o deprimido, é a vida que mata o suicida e não o contrário. E as fomes são duas: uma do desnutrido, outra do poeta. Só que a poesia é o nutrir-se ao avesso. Cesse de vez a hipocrisia de querer que poemas preencham. A gente poetiza é pra se esvaziar, pra ficar sozinho, mas tão sozinho a ponto de nem se acompanhar. Enfim, as fomes são duas: uma do menino no apartamento esperando a hora do jantar e a outra do menino de rua que me aborda no farol:
__Tio, me dá dinheiro pra eu comprar um livro?
