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09/06/2008


No fundo do prato

 

Todos mastigavam em silêncio. Em uma das extremidades da mesa, o pai comia como se notasse em cada grão ingerido o gosto de seu próprio suor. Gostava de sentir o sal na boca e achava que audição e paladar não se misturam, por isso, proibia terminantemente qualquer conversa durante as refeições. Segundo ele, conversa demais atrapalha a sentir o gosto das coisas.

A mãe nunca se opôs a esse posicionamento do esposo. Aliás, nem a esse e nem a nenhum outro. Comia como se não conhecesse outra coisa que não o silêncio. O mesmo silêncio que fazia fingindo dormir enquanto ouvia os barulhos de seu marido transando com a empregada durante a madrugada, no quarto dos fundos. Calou-se por tantas vezes que chegou um momento que passou a existir pra dentro.

Do lado da mãe estava sentada a filha mais nova. Era única que não respeitava a lei ditada pelo pai. Com seus onze meses de vida, tinha aquela rebeldia pura das coisas que ainda não se sabem e chorava, ria, gemia, gritava. Uma seqüência de ruídos que faziam com que o pai direcionasse a ela um olhar com tal teor de ódio que tornavam silêncio e ruído algo tão insuportavelmente único que era preciso tapar os ouvidos para distingui-los.

Na outra extremidade da mesa estava ela; 16 anos vividos sob o silêncio da mãe e o extremo barulho provocado pela existência do pai. As refeições, aqueles silêncios, os ruídos das mandíbulas se mexendo, os olhares, os talheres nos pratos, tudo isso a conduzia para uma reflexão existencial tão profunda que por vezes, ao terminar de comer, ela não se lembrava do que havia sido servido.

Ao contrário de sua mãe, calar-se, pra ela, não era um modo de se isentar, e sim um jeito de se portar perante as coisas. Seu silêncio tinha o exato peso do que ela silenciava. E esse peso recaia sobre todos, principalmente sobre ela. Todos os dias, ao fim das refeições, se retirava para o seu quarto, enfiava a cara no travesseiro e gritava, gritava até que a voz lhe faltasse.

Após anos repetindo ritualisticamente esse ato, resolveu alternar a ordem das ações. Um dia, no meio do almoço, sem prévias explicações, ela começou a gritar. Seu pai a encarou, sua irmã parou de chorar, a mãe se limitou a baixar a cabeça, como se já esperasse e ao mesmo tempo já perdoasse aquela atitude. E ela continuou gritando, gritando, gritando até não conseguir mais. Após isso, se retirou solenemente da mesa e foi para o seu quarto, enfiou a cara no travesseiro e se silenciou tão profundamente que foi possível se ouvir pela primeira vez: mãe, pai e filhas, ao mesmo tempo. Mesmo que calados.

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 12h01 AM
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