Maria Amélia era uma pessoa esquecida. Tudo começou sem muito alarde. Um dia, um de seus tios lhe perguntou a sua idade. Sem se lembrar exatamente, disse que tinha quatro anos. Mas Maria não mentiu por mal, somente se esqueceu que tinha apenas três aninhos e, para satisfazer os olhos curiosos do tio sobre ela, disse que tinha quatro.
Já um pouco mais velha, Maria aprendeu que não podia manter nada em sua mão. Não era seguro. Qualquer fosse o valor do que estivesse entre seus dedos, não diminuía o risco de, de repente, Maria soltá-lo pela rua. Ela soltava, tinha a mão aberta. Ao contrário de Midas, tudo que ela tocava, virava passado, perdia o valor.
Maria esquecia de ligar a luz. Entrava no quarto e não se dava conta da escuridão. Tinha dificuldade para se movimentar, para encontrar o que queria, mas não se atinava. Assim como só se atinava que estava descalça depois de sair de casa.
Uma vez, na adolescência, a menstruação pegou Maria desprevenida. Como não havia ninguém em casa, foi ela quem foi à farmácia comprar absorvente. Mesmo constrangida e aflita, comprou, pagou e agradeceu. Só quando voltou, vendo o sangue se escorrer pela sua perna, percebeu que havia esquecido o absorvente no balcão da farmácia.
O primeiro filho dela veio precocemente. Ela e o rapaz que havia conhecido há duas horas, se esqueceram de usar o preservativo. Não é que o desejo tenha sido tão voraz que tenha tomado conta das decisões dela e a tenha impedido de interromper o ato para colocar a camisinha. É que Maria simplesmente não lembrou.
Quando se casou com o pai do seu segundo filho, teve medo de esquecer o que dizer no altar. Mas lembrou de cada palavra. A única coisa que esqueceu nesse dia e nos próximos vinte cinco anos foi de amar o marido.
Quando voltou da lua de mel e retornou ao trabalho, ao fim do expediente, foi direto pra casa da mãe. Só quando colocou o carro na garagem, se lembrou de que não morava mais ali e que agora estava casada.
Incontáveis as vezes que esqueceu de buscar os filhos na escola, de levá-los à natação, de verificar se a mamadeira estava muito quente, de perguntar como havia sido o dia dos dois, de sentar ao lado deles, de contar história, de brigar, de censurar, de corrigir os maus hábitos. Maria, parecia, se esquecia de ser mãe.
Só bem mais velha quando a cadeira de roda já lhe servia de pouso e o Alzheimer lhe fazia companhia, ela realmente se esqueceu. Um dia, os dois filhos foram visitá-la. Quando viu ambos entrar pela sala, quis imensamente lembrar o nome dos dois. Pensou até no quanto eles haviam crescido. Mas quando ambos se aproximaram, ela teve medo porque já não reconhecia aquelas duas pessoas. Nunca as tinha visto antes.
Foi quando agosto chegou. Fazia calor e Maria passava o dia calada, sentada na cadeira, olhando o jardim. Parecia até que ela nunca mais iria esquecer de nada porque, na verdade, não havia mais nada pra lembrar. Parecia que Maria estava cansada e queria pela primeira vez, conscientemente, de propósito, esquecer. Ela, então, fechou os olhos e morreu completamente.
Na sua lápide ficou escrito:
Aos 28 dias do mês de agosto do ano de 2008,
Maria Amélia Monteiro se esqueceu de viver.
