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29/11/2008


Galo

 

Clara arrumava o apartamento, se perfumava, esquentava o jantar e ele sempre voltava. Na hora marcada, ele sempre voltava. Clara, era como um galo que acha que seu cantar é que amanhece o dia, e não o contrário.

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 01h43 AM
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02/11/2008


Esquina


Não mais que três horas da tarde e Dona Odácia segurava firme as mãos da filha Neide na esquina da rua Itauama com a São Sebastião.

Não só a testa, o corpo todo da matriarca franzia. A filha não entendia. Mas respeitava as ondulações no rosto e no caráter da mãe. Ficava calada, quieta.

Dona Odácia, volta e meia, olhava pro horizonte, se punha na ponta dos pés e lançava a vista como se quisesse alcançar o começo da rua Itauama, como se esperasse alguém, ou mais; como se esperasse ninguém.

Neide, com seus cinco anos, já tinha se acostumado com a dureza seca da mãe. Dona Odácia, até pra elogiar, era rude. Tinha gravidade da voz das mulheres que saem do nordeste pra vender barato o amor no centro-oeste e que depois passam a limpar a casa dos outros, com a amargura de quem limpa o chão todo santo dia, e não se limpa.

__Ah, ta chegando...vem vindo, vem vindo.

Dona Odácia disse essas palavras enquanto enxugava a testa molhada de suor. Depois se abaixou, arrumou o vestido da filha e a olhou nos olhos, não pela primeira vez, mas como se fosse; porque é assim que as pessoas se olham pela última vez.

Neide não sabia do tom de despedida do momento. Mal olhou para os olhos da mãe, ficou mesmo é reparando uma ferida perto do nariz dela e perguntou:

__Machucou, mãe?

Dona Odácia, dura como uma verdade ao meio-dia, se limitou a responder:

__É que a mãe foi coçar e machucou, filha.

Mal Dona Odácia acabava de falar o vocativo, um casal se aproximou. Neide só percebeu a chegada pela sombra que os dois fizeram em cima dela. Não conseguiu enxergar direito os dois.

Dona Odácia se levantou, deu boas tardes ao casal e conversou algo com a mulher que não se pôde escutar devido ao barulho de carros na rua.

O homem ficou olhando Neide, meio que sorrindo, meio que não. Olhava-a como se a acariciasse com os olhos.

Fez-se um silêncio.

Dona Odácia limpou as mãos suadas na saia e se chegou pra trás pra pegar na mão de Neide. E foi dizendo:
__Vem filha, você vai com essa moça. Ela vai te levar pra um lugar bom, desses bonito de morar, sabe?! Vê se num faz mal-criação e não desobedece. Daqui uns dias a mãe vai visitar você...

Apesar de entender tudo o que se foi dito, Neide ainda não tinha idade pra perceber a amplidão do que ouviu. Não mexeu mais de cinco músculos faciais ao pular da mão da mãe para a mão da senhora. Não ficou triste, nem feliz. Estava com fome.

Dona Odácia se despediu da filha e do casal com sorrisos breves se virou de costas. Começou a andar. Só anos depois Neide perceberia que nada é mais piedoso do que esconder o choro com as costas.

A moça chamou Neide três vezes até conseguir tirá-la do seu transe hipnótico, seu olhar parado na figura da mãe diminuindo a cada metro. Quando Neide olhou pra ela, a senhora perguntou:

__Tá com fome, Neide? Quer comer algo?

Neide aceitou com a cabeça. Pôs-se a andar de mãos dadas com aquela mulher ao lado daquele homem. Ainda olhou pra trás. Dona Odácia ainda estava de costas, mas agora já tão longe, tão longe que Neide já não a reconhecia mais.

 

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 12h56 PM
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