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26/01/2009


Clarinha

 

Clara tinha 4 anos quando foi à praia pela primeira vez. Assim que viu o mar, pensou que ele devia molhar mais que um rio, já que era maior.

Mais tarde, após os primeiros mergulhos e uma observação minuciosa, descobriu que as ondas eram o mar espirrando.

E já ao fim do dia, andando com sua mãe pela areia, Clara foi assaltada por uma curiosidade típica das crianças e, portanto, cruel:

 

­__Mãe, qual o nome da água-viva depois que ela morre?

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 06h28 PM
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07/01/2009


Ele

     Ele padecia de um tipo de timidez existencial. Não quer dizer que fosse pouco, era até bastante, aliás. O que lhe faltava, em certa medida, era talento pra vida. Certas pessoas têm esse dom, ele não. No mundo, ele parecia visita.
     Ele não se encaixava, ele era antes, ele era sem. Carregava consigo um certo descompromisso em existir. Era o tipo de pessoa que acompanha a própria sombra, e não o contrário. A verdade é que sua existência era tão frágil que sua sombra era opaca.
     Outro dia o vi andando pelo parque. Quis chamá-lo, cumprimentá-lo, mas seu nome se travou em algum lugar dentro de mim e eu não pude lembrá-lo. Então ele passou com aquele andar de quem cuida pra não errar o passo seguinte, mas erra invariavelmente.
     Só quando o vi se afastar e se perder na paisagem do parque da cidade, me dei conta de que, na verdade, nem sei mesmo se ele tinha nome.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 03h39 PM
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