Da minha pele sai um líquido, encharca a camisa, pinga no chão como se em mim fosse março o ano todo e, dia após dia, essas águas fechassem o verão. Uma pessoa mais distraída que passasse, diria se tratar de calor. Mas é que não é só isso. Do meu olho também sai líquido, coisa que me atrapalha porque desde pequeno eu não gosto de mergulhar com os olhos abertos. Uma pessoa mais distraída que passasse, suporia que choro. O líquido que sai dos olhos vai descendo e se mistura com o líquido que sai da pele e eu tenho a vaga impressão que não foi o mar, mas sim dentro de mim que virou sertão. E não é só isso. Porque minha calça também está molhada. Se aquela mesma pessoa distraída passasse, juraria que eu me mijei todo. O que ela não sabe, o que não leva em conta em seu prognóstico, é que o amor, em mim, é um processo fisiológico.
