__A gente podia namorar, não sei...
__Olha, nada contra você, mas eu gosto muito de ficar sozinha, sabe?!
__Ah! Eu também gosto.
__(...)
__Então, a gente podia ficar sozinhos juntos.
__A gente podia namorar, não sei...
__Olha, nada contra você, mas eu gosto muito de ficar sozinha, sabe?!
__Ah! Eu também gosto.
__(...)
__Então, a gente podia ficar sozinhos juntos.
O motor roncou, o motorista deu ré, um bocado de poeira se levantou, primeira marcha, se foi.
Uma mulher não se abateu com o fato de o ônibus ter sumido no horizonte e continuou abanando os braços, em despedida; como se fosse mais uma satisfação a ser dada a si mesma que à pessoa que se ia.
Talvez por cansaço, ela abaixou os braços e interrompeu os acenos; foi o que pensei vendo aquela mulher de costas com um ar de esposa que se despede do marido marinheiro em um cais qualquer e aumenta, com seu choro, consideravelmente o nível de água do mar.
Mas quando ela se virou, passou do meu lado, percebi; era a saudade. A saudade quando vem, faz baixar também os olhos. E a maré cheia em seu olhar, era a forma líquida do silêncio da ausência.
Atrás dessa mulher veio um rapaz também cabisbaixo, como convêm andar em rodoviárias e aeroportos, tilintando um molho de chaves, como se o barulho trouxesse algum ar de euforia e disfarçasse o cinza dos seus passos. Passou por mim também; alegre como quem assobia uma marcha fúnebre.
De meu, naquele ônibus, tinha ido um bocado de palavras, uns tantos cheiros, umas juras, uns pensares, uns dedos, uns medos, umas datas, meus vinte anos; como uma bagagem extraviada.
A poeira que se levantaou com a partida, há de baixar em outro lugar. Aqui não. Pois o mesmo ônibus que se foi ali e que vai atravessar cidades, é o mesmo que faz a viagem do sonho pra realidade.
Esse é um post atípico.
Pra quem não sabe, eu tenho um livro publicado. É um livro de poemas chamado Eu: poesia de mim. Geralmente, aqui no blog, eu coloco mais textos em prosa, mas quem quiser conhecer também o meu trabalho com poesia e tiver interesse em comprar o livro, fica aqui o email pra contato.
contato.jarleo@gmail.com
Até.
O acaso em mim nunca teve morada. Eu sempre soube de cor o que dizer e o que ouvir.
E quando aquele moço veio me dizer pra eu seguir de olhos fechados, eu não entendi e disse que assim eu me perdia. Ele se riu todo e disse que era bobagem minha, que esse caminho eu já sabia todo, antes mesmo de nascer. Eu tentei dizer que tinha memória fraca, ele falou que não era uma questão de lembrança, mas de intuição. Eu argumentei que de adivinhação eu era ainda pior, só que ele falou que intuir é prestar atenção em algo que a gente já sabe. Eu falei pra ele ir um pouco comigo, pra me dar a mão. Ele respondeu que não. E disse que quando a gente é bebê, a gente aprende a equilibrar o peso do corpo num passo atrás do outro, mas que andar sozinho é coisa que a gente só aprende mais velho e sem ninguém ensinar, nem segurar a mão. Nessa hora eu não soube o que dizer e ele num quis dizer mais nada não. E ficamos calados como se o silêncio é que nos tivesse feito e não o contrário.
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