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06/08/2009


Voltando

 

 Entrei no ônibus. Estava atrasado. Havia um só assento vago. Sentei. Tratava-se de um assento reservado para gestantes, idosos e deficientes físicos. Como não havia ninguém em pé, me sentei. Nos pontos seguintes, foram entrando pessoas. Muitas pessoas. Eu observava com atenção se alguma delas parecia ter um pouco mais de idade, ou se tinha alguma deficiência, ou estava grávida. Fechei os olhos por um segundo e pensei que preferiria fica em pé a ter que administrar essa pequena preocupação.

Ao abrir os olhos, uma mulher tinha surgido de repente à minha frente. Ela parecia grávida; usava roupa de grávida, tinha cara de grávida, mas apesar de gordinha, não tinha barriga de grávida. A partir desse momento fui dilacerado pela dúvida atroz: ceder ou não o assento?

A mulher não olhava diretamente pra mim; olhava pela janela do ônibus como se olhasse da varanda de sua casa a cidade se movendo. E o fato de ela não me olhar, me absolvia em certo sentido e me livrava da possibilidade de ouvir diante de todos, caso ela não estivesse grávida:

__Tá me chamando de gorda?

Mesmo assim eu sentia que o aviso que indicava que aquele assento era reservado para idosos, gestantes e deficientes físicos estava colado na minha testa, estampado na minha camisa. Qualquer olhar me era recriminador, qualquer tosse um aviso, qualquer freada um presságio. O ônibus passou a ser um lugar inóspito, o trajeto uma tortura.

Desci do ônibus quatro pontos antes de onde eu pararia. Preferi fazer o resto do caminho a pé e chegar atrasado a continuar com aquela sensação que o ônibus não chegaria nunca, que estava parado, ou pior: dando ré. Refazendo o caminho ao contrário, voltando para o mesmo lugar onde entrei e eu voltando para o mesmo lugar de onde saí, depois voltando para o lugar de onde vim, depois sendo criança de novo, voltando a engatinhar pra depois voltar pra dentro da barriga da minha mãe enquanto ela, no ônibus, espera um lugar pra sentar.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 01h20 AM
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