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19/11/2009


Enquanto

Tiro com regularidade a poeira dos móveis, limpo de joelhos o chão. Esforço-me para alcançar o mais profundo recôncavo escondido embaixo da cama. Rego a planta com abnegação e limpo um a um os livros da estante. Tudo isso para que quando você vier, encontre em minha casa um lugar mais habitável.
         Asseio o fogão, tiro as mais repugnantes gorduras das panelas. Empilho meus livros e cds de uma forma a lhe impressionar pelo conteúdo e pela disposição. Fora isso, tenho lido seus versos prediletos para que quando você chegar não falte assunto entre os silêncios que nós escolhermos.
        Sei de cor seus filmes mais queridos e podemos até brincar de encenar uma cena ou outra após bebermos o vinho que comprei pra te esperar. Vinho esse que após tanto tempo, vejo-o lentamente se transformar em vinagre. Como vejo o chão adquirir um aspecto opaco após tanta limpeza e como vejo a planta morrendo afogada, as panelas furadas, livros dispostos numa regularidade patética, como um museu vazio que ninguém visita.
         Começo a desconfiar que você não venha mais, que talvez não retorne. É bem provável que você nunca tenha ido e que essa solidão que me acompanha sempre tenha havido como uma espécie de saudade ao contrário. É, eu começo a desconfiar que você nunca tenha existido.


Escrito por Jarleo Barbosa às 11h20 AM
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