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28/12/2009


Vazio

Hoje, quando acordei, percebi que a casa tinha um vazio que não era comum. Um homem reconhece o vazio de sua casa. Exatamente por isso eu sabia que aquele não era um vazio habitual. Era como se alguma espécie de coisa houvesse ocupado lugar, mas não espaço. Uma presença fugidia. Aquele vazio não era o conhecido, portanto, não oco. Nem por isso preenchido. Era um vazio diferente. Um vazio vazado, como se habitado justamente pelo que lhe desabita.

Era um vazio que dava a impressão de poder ser tocado, mas ao mais leve movimento das mãos, percebia-se que se tratava de algo translúcido, algo com forma, mas sem consistência, uma espécie de sombra que independe de um meio material para existir.

Parecia que tudo existia em silêncio, secretamente. As coisas eram as coisas, mas destituídas do sentido primeiro de suas existências. Como se fossem antes de ser. Tudo estava devidamente em seu lugar, mas idéia de lugar estava alterada. As coisas ocupavam seus lugares onde? Não havia onde. Aquele vazio não se delimitava. Entre o que eu olhava e eu mesmo havia uma distancia inalcançável de tão próxima, à medida que estava tudo irremediavelmente longe. Tudo, todas as coisas que existiam eram sós. E tudo que era só, estava vazio.


Escrito por Jarleo Barbosa às 09h46 PM
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14/12/2009


De tão Bonita

 

Tentar entender completamente uma pessoa é uma forma de subestimá-la. Dar sentido a alguém é demarcá-lo, reduzi-lo a uma coisa só. As pequenas solidões que trazemos dentro de nós são vastas demais, não há cartografia que dê conta.

Que privilégio temos nós que não sabemos pra onde vamos e, contra o que nos atentam os mais velhos, não sabemos o que queremos. Que privilégio  podermos ser, vez ou outra, inclusive o que não somos.

Que privilégio temos nós de desconfiar pra sempre, mesmo que bem pouco, da pessoa amada. Confiar totalmente é uma forma de castração Acreditar que uma pessoa, só porque ama alguém, não seja capaz de se amar nenhuma outra, é desrespeitar a capacidade dela de se apaixonar.

Que privilégio o nosso o de desconfiar. Nós que amamos para lapidar o amor até que ele se torne uma coisa tão polida, mas tão polida que dispense qualquer entendimento, de tão bonita.


 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 02h16 PM
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