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27/05/2010


Sobre poucas coisas

Hoje acordei, meu bem, e tive medo. Medo porque o dia não amanheceu, só clareou. Eu olhei pro alto e não era noite, e não era dia. Parecia que o céu estava num estado de vigília. Você entende, meu bem, parecia com essas pessoas que não fazem companhia, fazem presença.

Tomei o meu banho pra tirar o sono do corpo, não tomei café pra não sentir enjôo no ônibus e saí. E logo na saída do meu prédio eu vi um homem dormindo na rua, meu bem. E isso não era o pior, ele dormia sob aquele céu, aquele céu. Triste homem dormindo sob a incerteza.

O fato é que não parei. O que dei ao homem foram alguns segundos de silencioso questionamento. Ele não sabe, nunca saberá.

Mais tarde, um profundo sentimento de tristeza me invadiu. Eu percebi que não sei mais escrever, meu bem. Eu não sei mais dispor os silêncios entre as coisas que eu quero dizer. Toda vez que eu tento, dói. Dói porque parece que é um parto ao contrário, como se gestasse um filho no mundo e depois ele entrasse em mim pra morrer.

Ai, amor, eu não sei mais escrever. E o que eu faço agora com as palavras que eu vejo por trás e por entre as coisas? Antes a vida já me vinha escrita, agora não. Era só preciso atenção para transcrevê-la. Agora eu preciso traduzi-la. E não consigo. Antes meu ridículo era bonito, agora é só ridículo.

E então eu quis escrever um poema de amor, sabe? Mas lembrei do homem dormindo no chão. Que quer ele do amor, do amor romântico? Eu fiquei achando que o amor é luxo pra quem só tem sobre a cabeça aquele céu. E fiquei com vergonha, meu bem. Eu sempre preferi pessoas a idéias. Pessoas são frágeis. E eu queria cultuar isso nelas; eu não queria enganá-las. E fiquei triste, amor, porque agora tudo que eu podia fazer era fingir.

Mais tarde, assistindo o noticiário, eu franzia a sobrancelha como quem se estranha ao espelho. Então noticiavam a chegada do Papa a algum país. Saiba, meu bem; quando eu o vi chegar com seu rebanho, pela primeira vez, não senti pena. Não senti. Eu me senti confortável. Ao andar pelas ruas da cidade, o sumo pontífice estava dentro de um carro, e era um Mercedes, e era blindado. Blindagem, que segundo o jornal, suportaria tiro de fuzil e explosões. Se até o papa, tem medo de morrer, ah, meu bem, nós estamos livres pra temer qualquer porvir.

Vendo o Papa dentro do Mercedes, eu acreditava nele. Um Papa dúbio, de meios sorrisos, meias palavras, que condena o aborto e a camisinha. A única idéia de Deus possível é um Deus que acorde de ressaca e arrependido.

O que eu sei é que o dia foi passando e eu me sentia cada vez mais sozinho porque o dia não vinha, a noite também não. As horas passaram não exatamente devagar, mas displicente. E o céu não era céu, era só uma menção.

E quando voltei pra casa, o homem não estava mais lá, meu bem. Restava no chão somente o papelão sobre o qual ele dormiu. Eu não consigo parar de pensar:

Será que ele ou a gente consegue se esconder do céu?

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 01h52 AM
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