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04/02/2011


5 minutos

Faltavam exatamente 5 minutos. Eu tinha absoluta certeza que esse era o tempo que restava. Eu me movia ansioso na cadeira, encarava o relógio com severidade. Faltavam 5 minutos. Mas eu não sabia pra quê. Um grande momento se aproximava, mas qual momento? A vida, nesse instante, me vinha como uma insinuação, uma vagueza de ideia. Eu presentia a vida. Eu a espreitava.

Levantei, peguei um cigarro que estava jogado em cima da mesa de centro e fui até a cozinha. Na falta de fósforo,  o acendi o na chama do fogão elétrico. Fiquei olhando a fumaça bater no forro de gesso e sumir pela janela. Só no terceiro trago me lembrei que não fumo. Nunca fumei. A ansiedade provocou em mim um surto de intimidade com a nicotina. Eu não conseguiria mais viver, durante aqueles minutos, sem o cigarro.

Fique assim encostado na soleira da porta olhando pela janela o céu alaranjado. Eu não tossia. Repare: havia intimidade. Enquanto fumava, enquanto olhava, eu pensava que possivelmente agora faltariam menos de três minutos. Eu estava mais calmo. O desenho da fumaça subindo, correndo…gerava em mim uma compreensão de fugacidade, da não permanência das coisas. Mas era inegável. Faltavam uns 3 minutos.

E ainda fumando, ainda olhando e pensando que possivelmente faltariam uns 3 minutos, eu lembrei do que a Clara havia me dito noite passada. Era alguma coisa sobre ter o espírito livre, eu acho. Eu quis ligar pra ela. Dizer: Clara, faltam uns dois minutos. Cadê você? Mas ela não entenderia. E eu não queria gastar meus dois minutos explicando. Eu queria aproveitar o mundo, aquele estado de coisas, antes de ele se transformar no que seria daqui a dois minutos. Eu era a testemunha viva de um rito, um momento de passagem. Eu queria estar atento.

Terminei o cigarro e o apaguei, amassando-o contra o azulejo da parede. Ao entrar na sala tive uma estranha sensação. Parecia que eu não estava entrando aonde ia, mas onde fui. Era como se eu estivesse retrocedendo, mas sem deixar de caminhar pra frente. Sentei na mesma cadeira. Olhei pro mesmo relógio. Faltavam 5 minutos. Não era possível que após fumar um cigarro todo ainda faltavam 5 minutos. Levantei-me afobado e fui até à cozinha. Quando meu primeiro pé tocou o ladrilho senti nitidamente que o tempo se esgotava. De onde estava, olhei pro relógio. Faltavam 50 segundos. Fui até onde fumei o cigarro e conferi ali a mancha causado no azulejo pela cinza do cigarro. Voltei às pressas pra sala pra dali comtemplar o momento inefável e desconhecido. Mas chegando lá, o relógio apontava: faltavam 5 minutos.

Minha respiração acelerava. Era possível que nesse momento, na cozinha, tudo já estivesse se dado. Eu compreenderia então que momento era esse tão esperado, esse momento que parecia ser o motivo final de todos os outros motivos. Corri pra sala. Minto. Não corri. Desminto. Não lembro bem se corri. Sei que fui afoito, mas sei que me lembro de cada pedaço desse trajeto. Coisa que alguém correndo não lembraria. Mas também lembro de estar ofegante. A questão é que o pequeno trajeto de menos de 3 metros entre um cômodo e outro, pareceu uma diáspora. Entrei na cozinha cansado, esgotado. Segurei com as duas mãos na pia e de cabeça baixa respirei ali algum tempo. Ao recuperar o fôlego, olhei pra trás e vi o relógio na sala marcando: não faltava nenhum minuto. Aliás havia passado um. Quando olhei pra frente, vi um homem encostado na soleira da porta fumando um cigarro, olhando pela janela. Parecia jovem, fumava como um jovem, olhava como um jovem. Eu me aproximei lentamente. Ele, sentindo meus passos, virou-se. Era eu. Era eu aquele jovem. Aquele que era eu não se importou com aquele que sou eu e virou o rosto. Continuou olhando pela janela, fumando. Eu jamais havia estado tão perto de mim. Eu não podia acreditar. Continuei me movendo em minha direção. Ia devagar, eu não queria me assutar. Quando já estava tão perto que era possível ouvir minhas respirações, resolvi tocar o ombro do jovem que eu fui. Mas ao fazê-lo o jovem evaporou-se e subiu junto a fumaça do cigarro, se misturando, bateu no forro de gesso, sumiu pela janela. Dissipou-se. Foi a última coisa que eu vi.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 04h41 PM
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