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29/03/2011


Texto 1

Quero manter essa tristeza. Quero preservá-la intocável, ou melhor, irretocável. Quero nutri-la do que pra mim é fome. Fazendo com que gradativamente eu seja ocupado por aquilo que me des-habita. Porque a tristeza é isso: estar preenchido do que lhe falta. Saudade é diferente: é estar vazio do que lhe preenche.

Eu quero conservar essa tristeza porque ela é o que restou de nós. E porque ela é física; músculo, sono. Mais: ela é fisiológica: gastrite, vômito. Eu quero essa tristeza porque assim te sinto perto. Eu prefiro você me fazendo mal, que fazendo nada.Porque eu sofrer é a prova inefável que você existe. E você existir aplaca um pouco o meu pesar de existir.

Por isso eu quero me manter muito atento a essa poeira que entra lentamente por essa janela. Ela me lembra o véu translúcido através do qual eu enxergo o  mundo. Porque eu sempre vi as coisas assim; como que enevoadas por uma poeira. Eu tenho um certo problema de aquilatação. E não sabendo dimensionar, eu acho linda a imagem daquele poema onde a mulher já cansada de brigar com o namorado diz: Eu estou cansada. E eu te amo. Se você quiser pode me bater.

Eu carrego essa tristeza como uma mãe leoa carrega seu filhote, com muito carinho, mas sem cuidado, pegando-lhe pelo dente como se educasse batendo. Trago esse pesar com disciplina, com sacerdócio e com dureza para que pouco a pouco enquanto eu lhe supro, ele me mate e enquanto eu sumo, ele padeça como duas coisas que se refutam, mas invariavelmente se precisam.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 08h02 AM
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27/03/2011


Homeopaticamente

A lembrança só me ocorre quando já me esqueci. Sofro homeopaticamente. Tenho o estranho hábito de sempre chegar atrasado ao sentir.
Geralmente as coisas só me aclaram quando elas já não fazem mais sentido nenhum. Sofro de um delay sentimental. Estou sempre a um passo. O que quase quer dizer não chegar.

É quando eu já quase me esqueço que eu começo a lembrar.


 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 12h22 AM
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