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19/04/2011


Julie, Agosto, Setembro

 

Em 2010 eu vivi minha experiência mais pragmática e dolorida com o universo da perda. Isso de alguém morrer ou ir embora eram pra mim imagens meramente simbólicas que no ano passado tomaram forma. Como em qualquer outra situação limite, algumas coisas acabam sendo questionadas. Ela é limite justamente porque é a fronteira entre uma coisa e outra. É um lugar onde tudo é tênue, incerto, abstrato. E por isso, recorrentemente inóspito.

Julie nasce nesse contexto. Repare, perde-se uma pessoa pra vida, outra pra morte. Noções básicas sobre a viabilidade do amor, a finalidade da vida, o lugar que te cerca, o outro lugar que te espera…acabam virando tema central da vida da pessoa. Era um pouco disso que passava na minha cabeça enquanto fazia o Julie. Mas além disso, eu queria que fosse um filme leve. Nunca o vi de outra forma. Foi a minha maneira de abordar um tema que pra mim era pesado.

Acrescento ao mosáico de coisas que me levaram a fazer esse filme, o encantamento que a cidade de Goiânia sempre produziu em mim desde que cheguei. Apesar de sempre ter vivido a menos de 100 Km de lá, só nós do interior sabemos como é diferente estar fora da capital. A distância não se mede em Kilômetros.
Eu sempre exerci sobre Goiânia um olhar curioso. Sobretudo sobre o centro da cidade, epicentro da minha vida e dos meus amigos onde tantas vezes eu andei ao meio-dia ou à meia-noite. Também sempre achei muito estranho como a cidade transita entre o conservador e o libertário, o agrário e o urbano. É uma cidade paradigmática.

O filme é todo narrado em francês, mas a questão principal não é essa. Sendo a história toda narrada por uma Suiça, é natural que ele seja narrado em Francês. Então a questão é: Por que uma Suíça? A arte também tem um papel exorcizante. Às vezes escrevo pra tomar carinho por coisas que de outro modo eu não conseguiria. Por exemplo: a partir de certa época comecei a ter implicância com o nome Lucas, por razões de ordem pessoal. Pra resolver essa questão batizei meu personagem do meu segundo filme, Faltam duas quadras, de Lucas. Foi uma maneira de eu acabar com isso e tratar o tema com menos solenidade. Com Genebra, Suíça, foi a mema coisa. Eu queria me obrigar a conviver com essa cidade, ainda que em 2010 ela tenha sido pra mim motivo de dor e despedida. Mas não, não é sadismo. É coragem de se enfrentar.

Eu e o Beny, Diretor de arte do filme, decidimos que seria um filme sem medo de excessos. Até porque o roteiro nos permitia uma certa liberdade na montagem dos figurinos e na criação do espaço visual onde a Julie circularia. A Julie é essa menina contemporânea, colorida, que transita pelo centro cinza, envelhecido. Uma imagem dessa Goiânia de contrastes. Aliás, essa uma uma abordagem que tem se tornado recorrente no novo cinema feito em Goiás, especialmente pelo núcleo embrionário de pessoas que deram origem à Panaceia Filmes e seus parceiros. Por exemplo, o filme da Larissa, o Enquanto, e do Beny, o Eu já não caibo mais aqui também tem essa abordagem. Ambos se apropriam da paisagem do centro da cidade conferindo a ela uma significação que extrapola sua territoriedade. Isso tem a ver com resignificar um lugar, retirá-lo do seu estado de regionalidade e conferi-lo universalidade.
Era isso que eu sentia quando o
Julie estreou. As pessoas se identificavam com a paisagem, mas exerciam sobre ela um novo olhar, menos viciado. Eu ouvi de algumas pessoas que saíam do cinema: “Eu nunca tinha reparado que…”

Quando a Julie, uma Suíça, transita pela cidade e exerce sobre ela um olhar reflexivo a cidade é revisitada em seus clichês e suas peculiaridades. Isso atribui ao lugar uma esfera totalmente pessoal e por isso universal. Aquela conversa já batida de quanto mais se fala do seu quintal, mais se fala do mundo. Então quando a Julie está sob o coreto da Praça cívica não é pra mostrar um ponto turístico, modelo de art decó, nem pra reforçar um esteriótipo da visualidade goianiense. É justamente o contrário; é pra resignificá-lo.

Ela é uma pessoa que está aprendendo a enxergar. Não só a cidade, mas a vida. É um filme de tomada de consciência. Com um caracter meio pessimista, admito. Mas era também a minha maneira de enxergar. Eu queria ser bem fiel a isso. O filme todo se passa como se a Julie tivesse esfregando os olhos pra ver melhor. E o fim não quer dizer ter conseguido enxergar, mas ter chegado a uma conclusão.

Eu queria que a imagem tivesse o tratamento similar a de uma polaroide. E pra isso rolou toda uma pesquisa. Mas não era pra ficar igual, era uma referência. Eu queria que o filme fosse um retrato instantâneo do meu momento porque daqui há pouco eu poderia já estar pensando diferente. Então eu queria que fosse o que a poloróide é: o império do agora.

Fico feliz de ter feito um filme que fale assim tão abertamente de Goiânia, sem pudor de me exceder ou faltar. Sinto que é uma retribuição que dou a uma cidade que me deu tanto. E acho especialmente bonito o fato de o lançamento ter sido no Cine Cultura. Apesar das adversidades, sempre quis que fosse lá por um motivo: Eu queria muito que as pessoas após saírem da sessão se dessem de cara com o coreto, elemento tão importante na trama. Eu queria propiciar essa experiência ao público. E não foi em vão. Após o filme, vi algumas pessoas que conversavam em animadas rodas e apontavam ocasionalmente pro coreto e depois riam umas pras outras. Eu também ri, resplandecido. Olhei pro coreto e fui pegar mais um chopp.

 

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 05h17 PM
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