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19/12/2011


O quadro

Eu apontei pra parede e disse que o quadro ficaria bom ali, um pouco descentralizado. Você concordou, eu bati o prego e você o pendurou. Ficamos assim, sentados em silêncio; observando a proporção parede/quadro. Em silêncio concordamos que aquele definitivamente era o lugar. Sorrimos orgulhosos.

Mas apesar do consenso, nem eu, nem você dizíamos nada. O silêncio foi se adensando como que se inflando de todas as palavras não ditas. Nós dois ali sabíamos profundamente de alguma coisa que a gente não fazia ideia do que era. Mas eu sabia, por exemplo, que aquele quadro pendurado à nossa frente tinha alguma coisa a ver com a busca pelo sublime, pelo etéreo. Eu me lembro bem de quando você viu essa imagem pela primeira vez e disse que ela lhe fazia desacreditar um pouco na ruindade do mundo. E então ela assim na parede da nossa sala, dá a impressão que o mundo é plausível. E que sendo plausível, seja justo.

E só agora sob o peso desse silêncio eu entendo algo que você escreveu há uns dois anos na última folha do meu bloco de anotações: o meu amor por você estende-se pro mundo. É só agora olhando essa parede branca invadida por um quadro, vendo o sol invadir a janela e fazer um desenho de luz e sombra no seu rosto, começo a entender que quem ama alguém, ama o mundo inteiro. Porque o amor torna a vida possível.

E nesse vago momento de olhar um quadro, está oculto os quilômetros que nós andamos, as vezes que bati à sua porta, o fato de eu saber sua marca preferida de ketchup, nosso hábito de ir domingo ao parque, as vezes que comprei o seu absorvente, ou que ri do jeito da sua tia. Está completamente imerso nesse silêncio aquela sexta-feira quente que servi cerveja no seu copo e o sábado à tarde que limpei a poeira embaixo da sua cama, ou as vezes que não sabíamos se virávamos aqui ou na outra esquina. Porque eu te olhei dormindo e continuei andando; quilômetros, quilômetros, quilômetros. E atravessei o oceano.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 01h53 AM
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