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18/04/2012


Superfície

Digo distraidamente: são seis e pouco da tarde. Você ouviu, mas pergunta outra vez. Eu respondo cansado: seis horas...seis e alguma coisa. Você se consterna. E no silêncio rubro da tarde eu percebo que o contato não nos aproxima. Porque eu sou do avesso. A minha superficie ninguém nunca viu porque tá dentro. O que eu mostro é o profundo.

E exatamente por isso, fico meio acanhado de deitar no seu colo. Volto a dizer: minha superfície é impenetrável. E você, sem saber, vai acarinhar meu cabelo, enquanto fala da fila do supermercado. É o profundo que sua mão acarinha. E então eu me levanto assustado, porque nenhum profundo consegue ser assim tocado como se o mundo se encerrasse no físico. A superficie é o que delineia o dentro.

Prossigo: Eu me levando assustado e num canto de olho percebo que no seu colo ficaram as caspas tiradas à carinhos da minha cabeça. Eu já não me reconheço nesses pedaços soltos de mim. Você, num ato de amor, não se limpa, iludida de que assim nossas superfícies se encontram. Porque você não sabe que nem a mim me pertenço. Sou o que consigo ser a despeito de mim. Digo isso sem reverberar, sem me preocupar como soa. Porque não sou oco; dentro de mim nada ecoa.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 01h36 AM
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