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30/12/2012


Das cores


Ele foi embora como que arrancando as cores dos lugares por onde passava.
Na estrada, quem olhava se assustava; um ônibus passando rebocando um árco-íris.

Escrito por Jarleo Barbosa às 12h38 PM
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03/12/2012


A parede

      Conversavam sobre a nova pintura do apartamento. Ele achava que o sofá vermelho não impedia que a parede fosse pintada de verde. Ela, sempre mais prudente, pensava que o laranja cairia melhor. (Mania dela de pensar o mundo gradualmente)

Ele encarou o branco da parede por alguns segundos. Ela imaginou que ele imaginava ali cores: verdes, laranjas. Mas não, ele acabava de se lembrar da conta de gás que havia havia esquecido de pagar. E por isso imaginou a fila que enfrentaria na segunda-feira, e por isso lembrou de seu banco, e se lembrou sobretudo que o corrimão da escada do seu banco era laranja, que o uniforme dos funcionários era laranja, os adesivos na porta, a maçaneta, a tampinha da ceneta. E rompeu o silêncio abruptamente:
     __Laranja, não!

De tão categórica a resposta, não ofereceu tréplica. Ela ficou parada, calada olhando pra ele, depois pra parede branca. E gradualmente começou a considerar que, realmente, laranja não.

Após sua resposta ele se sentiu subitamente cansado, quase nauseado. Caminhou até a janela, encostou a mão no parapeito e encarou a cidade como se faltasse no que via, horizonte. Como se os prédios lhe turvassem a vista e lhe privassem a sensação de que o mundo é findo. E sentiu falta da praia, sentiu falta de se sentar em frente ao mar e pensar:

__Depois dalí, acabou!

Ela, por sua vez, pegou uma camisa verde no guarda roupa e a esticou contra a parede. Olhava pro verde e pra parede, pra parede e pro verde. Depois olhava pro sofá e voltava pro movimento parede-verde. Por fim, olhou pra ele e disse:

__Você acha?

Ele olhou por cima do ombro, coçou a nuca. Ela sabia o que ele iria dizer após coçar a nuca e já soltou a camisa, jogando-a sobre o sofá.
    __É, não sei, acho que laranja é melhor mesmo. Ele disse.

__Laranja, não! Ela respondeu.

Ele voltou seus olhos pra fora e após ver uma varanda cercada de plantas achou que deveria ser interessante a vida das pessoas com varandas cercadas de plantas. E quis ser interessante também e ter uma varanda cercada de plantas. Apesar de não gostar do quanto venta nas varandas e nem ter lá esse afeto por plantas. Mas ali naquele momento gostou de se imaginar sentado numa varanda cercada de plantas, ou regando as plantas que cercam a varanda, ou simplesmente pra dizer pra ela que a parede deveria ser verde pra combinar com as plantas da varanda.

Ela pensou exatamente: talvez seja melhor quebrar essa parede. Ou talvez não exatamente assim. Quem sabe nem tenha pensado, mas disse:

__Talvez seja melhor quebrar essa parede.

Ele girou seu tronco e a encarou. Ela completou:

__É porque aí a sala fica maior.

Ele não mais a encarava. Olhava pro chão, reparando no rejunte mal feito do piso. Respirou profundamente pra conferir certa sonelidade ao que ia dizer e disse:

__A gente tava falando de espaço ou de cor?

Ela entendeu a pergunta dele. E por entendê-la não respondeu. Ambos sabiam que nisso de falar de parede estava contido o tempo, as vezes que ele não viajou por causa dela, as vezes que ela silenciou pra agradá-lo, o gozo e rancor mal dissimulados, a viagem pra Itália, as insônias, o anticoncepcional, o remédio pra calvice, a gastrite, os primeiros meses da paixão, a rotina, o cansaço. Era isso que o verde e o laranja falavam.

A parede da sala continuou branca por anos e anos. Tendo sua cor alterada somente pelo tempo que, com seu passar, vai gradualmente acizentando tudo.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 01h44 AM
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