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25/04/2013


Solidão

Numa manhã nem quente, nem fria de outono, a campainha de Antônio tocou. Pelo cedo da hora, ele estranhou, mas abriu. E lá não havia ninguém, só o vento nem quente, nem frio de maio. Porém, antes de fechar a porta, um ronronar lhe chamou a atenção. Embaixo, ao lado do tapete, uma caixa. Dentro da caixa, um gatinho. Tão pequenininho, tão cheio de inhos que era impossível não lhe pegar nos braços, não lhe levar pra dentro, não roçar o nariz no nariz dele, não lhe alimentar, não ligar pra namorada pra contar. A mesma namorada que, dotada do diploma de bióloga, aferiu e concluiu:

__Não é um gato, é um leopardo!

Por alguns segundos o carinho de Antônio pelo bichano se suspendeu como se a palavra leopardo conferisse ao animalzinho uma rudeza que deixava o afeto meio de lado. Mas aos poucos a palavra foi se adoçando no ouvido de Antônio e o carinho foi se instalando nele por aquele gato que, por acaso, era um leopardo.

Antônio nunca mais esqueceria a primeira vez que viu o bichinho dentro daquela caixa, sozinho, abandonado sabe-se lá por quem, tirado sabe-se lá a que força da mamãe leoparda. E tão forte era a imagem do gatinho largado naquela caixa que Antônio lhe deu o nome de Solidão.

Solidão foi logo ganhando lugar no quintal, ração especial que Antônio mandou trazer de São Paulo e foi ganhando peso, pêlo, tamanho. Solidão se acostumou a passar o dia todo sozinho e Antônio se acostumou com as patas de Solidão no seu peito ao chegar em casa, a língua áspera dele em seu rosto. Um foi se habituando à presença do outro, ao silêncio do outro, resolvendo as minúcias dos dias com gestos, murmuros e olhares. Antônio e Solidão falavam a mesma língua. E era mesmo por isso que não precisavam dizer nada.

Com o tempo Antônio foi sendo só pra Solidão e Solidão só pra ele. Assustados com a novidade felina os amigos de Antônio foram deixando de frequentar sua casa, a namorada bióloga preferia bicho impresso no livro e não suportou os pêlos de solidão espalhados pelo chão.

Um dia, numa manhã de outro outono, mais pra frio que pra quente, Antônio foi acordado por um rosnado. Em frente à sua cama Solidão o encarava sério, como os dentes à mostra. Antônio ecnonomizou os movimentos, piscou muitas vezes e, de nervoso, sorriu de canto de boca. Disse apenas:

__Ô, Solidão!

Antes que terminasse a frase, Solidão, num saltou, lhe cravou os dentes na jugular. E de nada valeu o tempo gasto, o nariz roçando nariz, a tigela de leite, o silêncio compartido, o afeto, o convívio. Apesar de tudo isso, Antônio se esqueceu, Solidão era selvagem.

Escrito por Jarleo Barbosa às 09h22 AM
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10/04/2013


Eu não quero saber

Não quero saber. Estou bem na sua ausência. Levanto cedo, faço o mesmo café, as memas duas colheres de açucar, o mesmo fogo alto, o mesmo pão, a mesma manteiga, o queijo, a mesa, a pasta de dente. O mesmo refluxo; o gosto da noite voltando na boca.

Por isso não quero saber. Continuo descendo o mesmo elevador e ocupando meu tempo com as frivolidades de sempre. Nas segundas, falo com o porteiro dos jogos de domingo, nas terças falo dos de quarta, na quarta reitero, na quinta depende, se o Flamengo ganha, faço aquele gesto com a mão que ele já entende que existe ali uma relação de poder e manda quem ganhou. Agora, se o Flamengo perde, eu saio pela garagem. Na sexta os assuntos são menos urgentes. Sábado é sol. Domingo é Fla-Flu. Tudo permanence na perfeita ordem. E eu não quero saber.

Preservo minhas liturgias, os longos banhos matinais, o check list exato para cada trajeto de ônibus, a leitura antes do sono, o café no meio da tarde. E as manias: não fazer sombra no prato enquanto como, escovar os dentes começando pela lingua e mexer a cabeça como se eu tivesse cabelo longo e o tivesse tirando do rosto.

Sigo fingindo que falo ao celular se me sinto deslocado, sigo devendo o cheque especial no Itaú e sentindo uma imensa compaixão pelo meu gerente, que parece estar atrás daquela mesa por eras. Esses dias ele me disse, querendo me tranquilizar, que quanto mais dinheiro, mais dívida. E entrou num papo que não consegui acompanhar porque fiquei imaginando ele ali acorrentando naquela cadeira enquanto todo dia um águia viria lhe comer um pedaço do fígado. E que esse mesmo fígado, ao fim do expediente se reconstituiria. E no dia seguinte a águia voltaria. E no seguinte. E no seguinte. E no seguinte. Até a aposentadoria.

E eu não quero saber. Estou absolutamente confortável dentro do tempo que outrora faltava. O tempo que era destinado ao sofrimento, hoje gasto com TV aberta, sofá, corrida, ralo entupido, louça suja. Essas coisas todas que eu não lembrava o peso que tinham sem ranhura do pesar.

A vida tem sido o que sempre foi. Essa quarta-feira de cinzas com restinho de purpurina no chão. Os mesmos medos, a mesma coragem, a mesma padaria na esquina, o mesmo rancor, a gastrite, a caspa, as cólicas, a pele empolada, a gaganta fechada. O corpo provando o contrário: que nada fica impune a nada. E embora eu diga que não, o dia a dia, o café, o porteiro, o gerente, a TV, o sofá, tudo está, desde então, suspenso há dois dedos do chão.

Escrito por Jarleo Barbosa às 01h29 PM
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