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22/06/2015


A casa vazia

No rejunte do banheiro está incrustado o vapor de dois corpos que ali se secaram. Dois corpos silenciosos ali estiveram, ali se molharam, apararam a umidade com uma toalha laranja e outra azul e depois as deixaram ali estendidas, aproveitando a nesga de luz que vinha da janela, criando, em sombra, a forma do chuveiro na parede.

Entre cada azuleijo existe o silêncio de dois corpos que se evaporou e condensou, criando no espaço uma vibração silênciosa. Como no teto enegrecido da cozinha; gordura misturada ao grito que um dia ela lançou na direção dele numa noite de uma quarta-feira de Agosto. O que ele consegiu escutar foi o que sobrou do berro que entre ele e ela se dissipou no ar, indo parar no teto. Ficando ali por anos, como uma nódoa, uma prova inequívoca de que ali, naquele espaço, numa quarta feira qualquer, duas pessoas se olharam sentindo o pesar de já quase nem se amarem.

Tudo na casa flutua, paira. Como a voz do pai ecoando pelos cômodos como uma onda de rádio; invisível e codificada até que um dia, um filho venha a se sentar à mesa e, sem que perceba, tomado por palavras que não são suas, fale com uma empostação patriarcal e assuma um trejeito contido, reto, endurecido. Todos à mesa o olharão num misto de admiração e susto. E pensarão em silêncio: “Enfim, a casa tem um pai.” Sem saberem, no entando, que não é o pai, não é a mesa, não são os olhos assustados. É casa. Tão somente a casa.

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 01h58 PM
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18/06/2015


Solos

Ela disse: cuando uno no tiene con quien compartir las cosas, se torna una persona sola. Eu meneei a cabeça como se concordasse, depois baixei meus olhos sobre o café já frio e dei duas voltas na xícara com a colher, volvendo do fundo o açucar restante.

Ela me olhava como se olha a alguém depois de ter dito algo com propriedade, sabedora do que estava em jogo no que dissera. Era uma das suas especialidades transformar qualquer fala prosaica numa mensagem cifrada. E ela sabia, a despeito do tempo passado, que era eu seu melhor tradutor.

Só que ali, no meu baixar de olhos, no meu mexer displicente na xícara, não havia nenhum esforço de entender o que ela dissera. Eu estava interessado no ‘como’. Duas horas conversando no mais translúcido português, recheado de prosódia goiana e ela, num súbito, diz em fluente castelhano: cuando uno no tiene con quien compartir las cosas, se torna una persona sola.

Ela não tinha essa desenvoltura com a língua e então eu me assustei, antes pela construção frasal que pelo conteúdo. Tentei disfarçar, meneei a cabeça, mexi o café. Mas quando ouvi cuando uno no tiene… Foi como ouvir: el tiempo ha pasado. Mira vos…Não sei ao certo a razão, mas por ter me olhando assim nos olhos, por ter falado nesse quase lunfardo, tive um impulso incontrolável de ser cínico. Não fui. Abaixei meu olhar, mexi na xícara e através do vidro da mesa vi que ela mexia os pés sem parar, como antes. Ela, se sentindo flagrada, parou.

Eu queria ter dito: Existe uma memória que é do corpo. Nada adianta esse seu esforço solene para parecer que o tempo fez de você uma coisa que eu, de nenhum lugar, poderia acessar. Não adianta encher a boca pra dizer ‘lo que hace o no hace una persona sola’. Sobre estar sozinhos, aprendemos juntos. Somos irmãos nessa solidão, porque somos reféns do que vivemos. Sei dos seus pés que movem, conheço sua ansiedade como se fosse minha e dividiria até meu Frontal com você, numa segunda-feira agitada. Seu pé te entrega, sua ânsia te revela. Admitamos: Somos as mesmas duas pessoas, atravessados pelo tempo.

Mas não disse. Ela também não quis saber se por fim eu concordava ou não. Ficamos nesse silêncio remanescente da última fala e ao mesmo tempo precedente da seguinte.  Um silêncio que guarda a memória dos dias gastos num castelhano ainda rastejante, em uma Buenos Aires menos hostil. Um silêncio que vai nos cercando, como que delimitando e estreitando o lugar. Um silêncio que vem abraçando e sufocando e vai se fundindo; se transformando em eco do que não foi dito, nem seria, nem será. Toda história vivida para desaguar no silêncio que nessa tarde fria yo y vos compartimos. Y  todavia seguimos. Solos.


Escrito por Jarleo Barbosa às 03h47 PM
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