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09/09/2015


A galinha cega

Essa é a história de três irmãs velhas e sozinhas que moram numa pequena cidade, em uma casa avarandada com uma galinha cega no quintal. Desde quando vem essa cegueira, nenhuma delas pode vaticinar. A irmã do meio, mais rabugenta, porém delicada, à medida que se dá a sutilezas como falar com plantas, foi a primeira a perceber que a galinha Carla tinha um temperamento arredio; não se misturava às outras, nem no distribuir dos milhos que, pontualmente às oito da manhã, a irmã mais nova despejava pelo chão do quintal. Zelosa e comedida, (ou orgulhosa no dizer da irmã mais velha), Carla comia depois das outras, não se importando de ficar com a xepa do piruá.

Foi num dia quente de setembro que, enquanto a irmã mais nova enrolava seu cigarro de palha, recostada ao cano que ancora a varanda, ela viu Carla se debatendo contra a parede. Se tivesse a irmã mais nova um pouco mais da vivência da irmã mais velha e um pouco mais da destreza da irmã do meio, teria logo se inteirado da deficiência da galinha. Mas não sendo portadora de tais atributos, a irmã mais nova se limitou em catar uma brita do chão e atirar contra Carla. E gritar: Galinha burra!

A irmã mais velha, mãe de três filhos que nasceram mortos, foi a primeira a notar que, de todo o bando, Carla era a única a não ter gerado prole. E botando reparo, por seu temperamento recluso, nem com galinha, nem com galo Carla se dava. A irmã mais velha pensou que não havia destino mais certo pra ela que não a panela. E ficou assim, parada, olhando por alguns segundos Carla sozinha, sob o sol, cercada de pintinhos que não eram dela. E então chorou. Chorou um choro de criança abandonada. De criança sem mãe. De criança morta.

E foi pontualmente às oito da manhã que a irmã mais nova saiu no quintal e viu Carla deitada no chão, enquanto todas as outras galinhas cacarejavam em alvoroço, intuindo na presença da irmã mais nova o desjejum. E a sensibilidade que lhe faltou por toda a vida, lhe sobrou nesse momento pra esquecer o saco de milho no chão e pegar Carla nos braços, que ofegava. Percebeu que dos seus olhos saia um negrume, como que um choro enlutado, uma graxa leitosa. A irmã mais nova levou Carla contra o seu peito, como se ninasse um filho. Ofegante, Carla mantinha os olhos abertos, buscando alguma coisa na escuridão, enquanto a irmã mais nova com muita ternura começou a entoar um canto e balançar pelo quintal, em roda.

Foi com essa mesma ternura que a irmã mais nova olhou nos olhos de Carla e, pela primeira vez em muitos anos, se comoveu. E foi com essa comoção que, com muita delicadeza, num só golpe, ela torceu o pescoço de Carla.

Da soleira da porta as duas outras irmãs a olhavam com olhos opacos, como se faltasse no olhar as retinas, como se fossem dois rostos furados. Ao sentir-se flagrada a irmã mais nova soltou Carla, que caiu morta no chão. As outras galinhas se aproximaram, contornando a irmã mais nova, e logo passaram a ciscar o corpo de Carla, começando pelos olhos.

 

 

Escrito por Jarleo Barbosa às 09h45 AM
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