Hoje, quando acordei, percebi que a casa tinha um vazio que não era comum. Um homem reconhece o vazio de sua casa. Exatamente por isso eu sabia que aquele não era um vazio habitual. Era como se alguma espécie de coisa houvesse ocupado lugar, mas não espaço. Uma presença fugidia. Aquele vazio não era o conhecido, portanto, não oco. Nem por isso preenchido. Era um vazio diferente. Um vazio vazado, como se habitado justamente pelo que lhe desabita.
Era um vazio que dava a impressão de poder ser tocado, mas ao mais leve movimento das mãos, percebia-se que se tratava de algo translúcido, algo com forma, mas sem consistência, uma espécie de sombra que independe de um meio material para existir.
Parecia que tudo existia em silêncio, secretamente. As coisas eram as coisas, mas destituídas do sentido primeiro de suas existências. Como se fossem antes de ser. Tudo estava devidamente em seu lugar, mas idéia de lugar estava alterada. As coisas ocupavam seus lugares onde? Não havia onde. Aquele vazio não se delimitava. Entre o que eu olhava e eu mesmo havia uma distancia inalcançável de tão próxima, à medida que estava tudo irremediavelmente longe. Tudo, todas as coisas que existiam eram sós. E tudo que era só, estava vazio.
